OPINIÃO DA FOLHA
Por um Brasil sorridente
Certamente que não bastará colocar dentes nos 30 milhões de desdentados brasileiros para que eles sorriam, e nem ocorrerá que eles deixem de sorrir pelo fato de se encontrarem nessa condição. Ontem mesmo este jornal publicou a fotografia de um desdentado em vasto sorriso, ilustrando o texto que narra aquela triste estatística e falando do lançamento, pelo governo federal, do programa Brasil Sorridente. O plano é distribuir 2 milhões de kits, com escova e creme dental, para 500 mil jovens escolares da rede pública. O que, afora ser uma providência de caráter assistencialista, é de pequena amplitude e não resolve o problema dos infortunados cidadãos desprovidos de dentes.
Depois do programa Fome Zero, que não proporcionou o resultado esperado, mais uma promoção do gênero não passará de paliativo. As duas coisas aquela revelação e o lançamento do programa dos kits dentais não se vinculam, embora ocorram no mesmo momento. Não fosse o elevado número de desdentados um problema tão sério, imaginar um Brasil sorridente apenas pela doação de escova e pasta dental a um universo tão pequeno de crianças soa como um gracejo e nem mereceria que o presidente da República dele se ocupasse publicamente, como se fora um acontecimento de salvação nacional.
Trinta milhões de desdentados ocultam um problema mais grave, que é o da miséria social, que impede a tanta gente não ter acesso a atendimentos de saúde, isto compreendendo também o tratamento dentário. Para não falar da insuficiência alimentar, mãe de todas as mazelas daí decorrentes. A nação espera mais que providências desse gênero, valiosas porém ainda pequenas ante a necessidade de arrojados projetos que contemplem o desenvolvimento e gerem riquezas. Óbvio que se as pessoas não têm dentes e as crianças não escovam os dentes, não será porque não o queiram mas porque a pobreza as induziu a tal estado.
Não é incumbência do governo promover assistencialismo social. Mas se ele é necessário no momento, face à degradação social a que chegaram milhões de patrícios, há que não ficar nisso mas debruçar-se sobre grandes projetos que incrementem a capacidade produtiva já instalada e estimulem novos empreendimentos. Cada cidadão saberá resolver sozinho os seus problemas, bastando proporcionar-lhe os recursos, e estes chegam pela via da renda própria. São muitas as fórmulas para dinamização da atividade econômica, e ao governo cabe uma substancial parcela nessa tarefa, mas decorridos já quinze meses do governo Lula, nada se viu ainda nesse sentido. O Brasil Sorridente que todos anseiam terá de trilhar primeiro pelo caminho do desenvolvimento, porque não não há outro.





