Poder público como moderador

Um presidente norte-americano disse certa vez que uma nação não tem amigos, mas interesses. No universo dos negócios também é assim, e o jogo da competição não contempla concorrentes. O que ocorre em Londrina com a questão Wal-Mart/Teatro Municipal, na verdade exclui o teatro, embora ele apareça como figurante emocional no espetáculo. As razões que levaram a Prefeitura a desapropriar o terreno são outras e têm a ver com o negócio dos supermercados e seus naturais interesses, afora negociações outras de natureza política; e, naturalmente, interesses de vulto relacionados com a venda da área em questão e que beneficiam os proprietários e intermediários. O que não é condenável, de forma alguma, porque faz parte da dinâmica dos negócios. É ingenuidade de ideologias vesgas argumentar sob a ótica de que possa ser nocivo ganhar o máximo na venda de uma propriedade, e que corretores também ganhem. Quando não há dinheiro público envolvido, pouco conta o volume de um negócio se realizado pela iniciativa privada; ao contrário, quanto maior ele for, maiores os benefícios a mais pessoas.
Não é uma disputa por preferência entre aquela rede de hipermercados e o decantado teatro que está no bojo dessa polêmica, já de domínio público e com a salutar participação da comunidade. A desapropriação da área em questão não foi propriamente ''para o teatro'', mas foi o teatro o ponto de apoio para a medida. Ademais, a desapropriação foi feita apenas no papel, e não paga, até porque não se estipulou um valor e não há dinheiro no momento para esse fim.
Há quem suponha que, não disponibilizando aquela área que é a preferida do Wal-Mart por questão de localização e dimensão esse grupo abandone Londrina, daí o apelo à desapropriação. Gigantes empresas não se instalam numa região, ou se afastam, por causa de um espaço físico ou por razões emocionais, muito menos por doação ou não de terrenos pelo poder público. Elas se estribam em resultados positivos de conveniência puramente mercadológica. O apoio oficial, naturalmente, é bem aceito mas não fundamental, a não ser para investidores de baixo capital. Diga-se en passant que, no caso, o Wal-Mart nada solicitou nesse sentido e nem está sendo contemplado com algum favorecimento.
Não há nenhuma garantia de que, com o abandono da preferência daquela área pelo Wal-Mart, ou a busca de outra, ou ainda a eventual desistência de Londrina pouco provável o teatro vá despontar a um passe de mágica, naquele espaço. Porque não há verba para as duas coisas: a desapropriação, de valor elevado (embora menor do que o pretendido pelos donos) e a construção do teatro um empreendimento que, como já se disse, não será apenas palco e poltronas mas também uma dispendiosa estrutura paralela. Sonho realizável, porém dourado demais face à circunstância financeira atual do cofre público municipal, mesmo com a anunciada possibilidade de obtenção de verbas federais.
A disputa não é Wal-Mart versus teatro mas uma envolvência de gigantes da área mercadista, porque é assim mesmo que acontece, aqui e alhures, e faz parte do jogo. O poder público deve intervir não como agente direto no processo, mas como mediador, e discernir sobre o que melhor convém à comunidade. No caso, saber garantir os dois empreendimentos: a empresa que quer vir e, com toda certeza, trazer benefícios, e o Teatro Municipal. Procedimentos bloqueadores podem inviabilizar a ambos, e essa responsabilidade recairá sobre o prefeito.

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