OPINIÃO DA FOLHA
O direito à água
Se num país como o Brasil que tem produção de alimento suficiente para todos e com sobras para exportar há quase um terço da população sofrendo de carência alimentar, o mesmo acontece com a água, que dispensa produção mas escasseia para um enorme contingente populacional. Ambos os bens existindo em abundância, porém mal distribuídos. As razões são conhecidas e se estribam na pobreza a representada pelo não-alcance, para muitos, das coisas fundamentais, e a pobreza de consciências.
Reportagem publicada hoje neste jornal fala da falta de água em Londrina para grande número de comunidades residenciais, que são obrigadas a valer-se de baldes e latas e ir buscá-la onde houver. Um exercício que lembra o drama nordestino, onde as chuvas escasseiam e o flagelo atinge milhões de patrícios. No caso de Londrina são milhares de domicílos sem ligação de água, e a própria Sanepar alega nem ter condições de identificar quantos são. De resto, um problema que ocorre nos núcleos miseráveis de todo o Brasil.
Os males daí decorrentes são múltiplos, começando pela saúde, porque as águas colhidas nessas condições são impróprias para se beber. Na extensão, além do sofrimento das pessoas, intensifica-se o custo social dessas mazelas, e aquilo que o poder público ''economiza'' em água tratada e em abertura de poços comunitários gasta em dobro no atendimento às doenças daí advindas.
Há 2 mil poços artesianos em Londrina, o que não é irregular, mas acaba tornando-se se não há fiscalização da qualidade da água, que é feita pelo IAP - Instituto Ambiental do Paraná. E os números indicam que 80% desses poços são clandestinos, no sentido de que não notificados àquele órgão.
Se esses problemas são preocupantes, o desperdício de água por parte de quem a tem em abundância os agrava. A Campanha da Fraternidade de 2004, da Igreja Católica, alerta para as duas situações, notadamente a de que a água é fonte de vida e direito de todos. Se é um direito, sabe-se que ele não está sendo atendido plenamente. E esta é a realidade que a Campanha visa acentuar, para sensibilizar a quem incumbe resolver o problema.
Se a limitação da água é um mal em si, reflete o mal maior que é a miséria social originada da escassez de fontes de trabalho e renda. Isto, contudo, não invalida que o poder público atente para a situação e lhe dê prioridade. Os meios inventados pelo homem para obter água são muitos e há que utilizá-los, mas sem muito discursar e sem muito projetar, mas ''fazejar'', como diz a sabedoria dos simples.





