Ostentação prejudicial

O leilão de reprodutores bovinos, realizado a bordo de um navio de luxo, em Búzios, mostrou uma ostentação que não retrata a realidade da pecuária brasileira e nem do produtor rural em geral. Ao contrário, criou uma imagem de irreal opulência que prejudica reivindicações desse segmento da produção e reforça a corrente daqueles que imaginam que o empresário rural nada em dinheiro e é o vilão da pátria. Assim, os simpatizantes dos movimentos de invasões de terras fazem a festa e enchem-se de argumentos, nem sempre verdadeiros, para levantar suas bandeiras e ganhar simpatias no seio da massa desinformada.
Num tempo em que se trava no Brasil uma verdadeira guerra ideológica, inspirada no ideal de dar terra a quem não a tem mesmo a custo de, muitas vezes, tirá-la de quem já a tem e a faz produzir deslumbramentos como o desse leilão fazem afundar, qual Titanic, os esforços para mostrar à sociedade a verdadeira realidade do homem do campo, que é tão sofrida quanto a de qualquer empresário ou trabalhador comum, ou muito mais, porque sujeita a fatores externos e não previsíveis. A demonstração de um fausto que não corresponde à verdade leva a imaginar que seja verdadeira a sentença de um ex-ministro de que ''os agricultores choram de barriga cheia''.
Notícias de grandes safras agrícolas e do crescimento da produção pecuária acabam, também, por criar a imagem de que o homem do campo está ganhando muito dinheiro, como se, em contrapartida, houvesse aí uma culpa pela existência dos bolsões de pobreza. Todos quantos lidam na atividade rural, e os cidadãos mais esclarecidos, sabem que grandes colheitas acabam por privilegiar mais o intermediário que o produtor, e, no mais dos casos, quando os preços são anunciados como muito bons, ele não desfruta disso porque teve que vender antes a sua produção e em condições bem mais baixas, para atender aos seus improrrogáveis compromissos financeiros.
Por não saber adotar estratégias e apelos de sensibilização popular, como tão bem fazem os militantes do MST e as esquerdas ainda festivas, e pelo fato de um dono de estaleiro e também pecuarista permitir-se o deslumbre de promover uma festa de luxo como essa do leilão a bordo, as próprias instituições governamentais vinculadas à agricultura e à pecuária e os cidadãos menos informados passam a olhar o produtor rural como um latinfudiário e um suposto marajá. Ignoram que, como em todos os segmentos da atividade humana, há alguns poucos que desfrutam de tal condição mas que a maioria compõe o universo da gente simples e de mãos calejadas, que luta para subsistir. Desprezam, até por miopia, que é o homem da roça quem faz chegar à mesa do povo o alimento, que a agricultura gera milhares de empregos diretos e indiretos, robustece a economia nacional e traz preciosas divisas ao País por via da exportação.

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