OPINIÃO DA FOLHA
Premiação ao contrário
Prêmios costumam ser dados para pessoas que em suas áreas de atuação se destacam por virtudes ou procedimentos extraordinários. Recompensas, por outro lado, se caracterizavam, nos tempos dos xerifes, como pagamento pela captura de alguém considerado fora-da-lei. Recentemente, bem ao estilo do velho oeste norte-americano, o presidente pôs a prêmio a cabeça de um terrorista.
No Paraná, um decreto governamental paga a quantia de R$ 100,00 para os cidadãos que entregarem uma arma. Na rabeira das campanhas de desarmamento, até escolares receberam recompensas por terem levado aos seus estabelecimentos de ensino armas de brinquedos. E marmanjos resolveram tirar proveito da situação, trocando por dinheiro velhas garruchas confeccionadas em casa, com canos de água e madeiras toscas imitando as coronhas.
No Estado do Rio, o último grau da incoerência. O governo promete gratificar com prêmios em dinheiro o policial que resistir a uma oferta de corrupção. Ou seja, aquele que trabalhar de acordo com a ética, a moral e a dignidade, ingredientes que deveriam estar incorporados e assumidos por todos os membros de uma corporação qualquer, inclusive a policial, receberá no final do mês mais do que o salário.
O Brasil tem a sua história manchada por atos de corrupção cometidos por grandes, pequenos e médios. Nos últimos meses, porém, enquanto os promotores públicos travam incansáveis batalhas para punir responsáveis por fraudes de natureza diversas, e os parlamentares, nas assembléias legislativas, na Câmara Federal e no Senado, e nos legislativos municipais, se empenham contra este mal em comissões parlamentares de inquéritos ou comissões especiais de inquéritos, mais e mais denúncias, envolvendo inclusive o Judiciário, pipocam de um canto a outro.
Sintomático. Significa que algumas forças do bem estão agindo contra esta velha força do mal. É a tentativa da corrupção ser parte apenas de uma grande fase do passado brasileiro e servir, doravante, de exemplo de como evoluir sem tirar dos outros o que não lhe é devido.
É estranho, portanto, alguns agirem na contramão justamente agora. Pagar para ser honesto soa como uma desonestidade. Pior do que isso: é a institucionalização de um estado de corrupção. E quem garante que o suborno pago pela bandidagem não seja maior que o repassado pelo Estado?





