Sensibilizar a alma nacional

A queda de popularidade do presidente Lula, divulgada nesta semana pelo Instituto Sensus, demonstra que, decorridos 13 meses do seu governo, o povo está tão desesperançado quanto no correr do segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso. Aqueles eram dias de incerteza e pessimismo, e esperava-se, ao alvorecer do novo governo que assumia, o fim desse pesadelo e o início de um novo tempo, com esperanças renascidas.

Os cidadãos mais esclarecidos sempre souberam que o presidente Lula, mesmo que imbuído dos melhores propósitos e cheio de vontade - atributos que não lhe faltam - iria enfrentar correntes de oposição, primeiro no seio de seu próprio partido e a seguir no ventre da própria máquina burocrático/administrativa. Se temia-se pelas barreiras na esfera do Congresso, tal não ocorreu na intensidade que se supunha, e pode-se afirmar que, ali, o Governo veio encontrando mais apoio que resistência.

Se as reformas até agora propostas e votadas não ocorreram como se desejava, foi menos pela oposição dos congressistas e mais pelas próprias circunstâncias da realidade nacional, que não facilita mudanças radicais. Há muitos vícios arraigados no âmbito da esfera da administração pública, para não falar de leis velhas e já inadequadas, que as correntes beneficiadas (e detentoras de muito poder de influência) não desejam mudar. Um exemplo é o mito da legislação trabalhista, na qual todos têm um medo atávico de tocar.

O sistema financeiro, entendendo-se aí os juros estratosféricos, é outro tabu, porque impera a mentalidade - no seio do próprio cidadão comum, que geralmente fala por ouvir dizer - de que a facilidade de liberação do dinheiro, pela via de crédito fácil e barato, gera consumismo e inflação. E assim, por conta desses temores, o Brasil caminha lento e com bolsões de recessão, com todos os males daí decorrentes. Mesmo entre as lideranças de classes não há unanimidade quanto às fórmulas de solução dos problemas, e assim essa vertente da inteligência nacional perde a preciosa oportunidade de oferecer idéias e subsídios ao Governo.

Sobram em Lula o anseio pessoal e o ardor patriótico de realizar, mas talvez lhe falte a habilitade para mobilizar as forças vivas da nação e levar de roldão todo o povo, que por ora só é convocado a apertar o cinto e a manifestar sua opinião sobre o ranking do ibope do Presidente... Há um potencial humano latente, porém ausente de uma união nacional em torno da solução, ou propostas de solução, para os problemas comuns, talvez mais fáceis de resolver do que a própria unanimidade e disposição para fazê-lo.

É um hábito brasileiro esperar demais por soluções governamentais, embora o arrojo de certos segmentos da cadeia produtiva - destacadamente a agropecuária e a industrial - que não esmorecem, driblam crises, reais ou nem tanto, e avançam. Estes carregam o Brasil inerte e subdesenvolvido, que constitui um fardo pesado e que aí está, não podendo ser ignorado e abandonado.

Até por falta de tradição política e ausência de legítimo patriotismo, os brasileiros em geral não participam dos processos de mudanças. Certamente que uma nação não progride sem o entusiasmo, a crença e o engajamento convicto de seus cidadãos. Talvez seja isso mesmo que falte, como ponto de partida: uma voz alta de comando e de entusiasmo a partir do Planalto Central, que alcance os ouvidos da pátria e sensibilize a alma nacional, levando o povo à mobilização e a sentir-se cidadão consciente, partícipe e responsável.

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