OPINIÃO DA FOLHA
Todas as frases do presidente
A instabilidade econômica cria situações embaraçadoras para o governo e tira do presidente Luiz Inácio Lula da Silva frases que certamente ficarão na história. Durante a semana, uma brincadeira com o governador do Piauí, estado que enfrenta período de emergência por causa da chuva, fez uma platéia de cerca de 200 autoridades se calar diante de uma condição que, normalmente, arrancaria risos. Em tom de brincadeira, o presidente perguntou ao governador se estaria com medo de se afogar.
Na quinta-feira, uma jornalista se viu obrigada a protagonizar com Lula da Silva uma situação de constrangimento. Assediado pelos profissionais de imprensa, o presidente mastigava castanha-do-pará e se dizia calmo ao ser interrogado sobre os efeitos que os boatos em torno da saída do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, criava na economia. Em determinado momento, Lula da Silva disse, interrogativamente, à jornalista: ''Por que, em vez de perguntar, você não enche a boca de castanha?''
Essas reações do presidente levam pelo menos a uma conclusão importante: o mesmo homem público que discursa diante de autoridades do mundo todo com a sapiência de um grande estadista, consegue ser popular sem o risco de ser populista numa comunidade distante do Nordeste do País. Minutos depois, rodeado por jornalistas, é espontaneamente simpático e agradável, mesmo exagerando no conteúdo de algumas brincadeiras.
Culto e cercado por uma áurea de inteligência extrema, seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, era dono de um vocabulário nobre e acadêmico, a ponto de torná-lo antipático, além de ter nas respostas o veneno da ironia. Este também, durante oito anos de dois mandatos como presidente, discursou para chefes-de-estado de todo o planeta. Mas não conseguiu o diploma que o sucessor, através dos aplausos e do respeito, recebe dos seus ouvintes.
O presidente Lula da Silva não deve ser preparado pelos teóricos que o cercam para se calar diante de situações inusitadas. Muito pelo contrário, ter um Lula sem a espontaneidade do ex-sindicalista é igual a conviver com um homem público que, cercado por problemas que o cargo oferta, deixou de ser ele mesmo. Evitar gafes? É quase impossível.
Mas está dentro das possibilidades seus assessores criarem condições mais favoráveis na economia, na saúde, na educação, na segurança pública e, enfim, no cotidiano da população brasileira. Assim, todas as frases do presidente, que tem dentro dele a necessidade de ser um cidadão como qualquer outro e assim se expressar, não criarão rubores.





