OPINIÃO DA FOLHA
Miséria fora dos palanques
Sete dos 21,7 milhões de pessoas que vivem em pobreza extrema no Brasil estão em cidades com mais de 100 mil habitantes, algumas delas caracterizadas como metrópoles, conforme aponta um levantamento feito pela pesquisadora Sônia Rocha, da Fundação Getúlio Vargas. Seriam, de acordo com a pesquisa 224 as localidades com este perfil, de um total de 5.507 municípios, de acordo com o Censo de 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Um índice importante: os 21,7 milhões de miseráveis representam 13% da população brasileira.
A princípio, imagina-se que o fato das populações pobres estarem nestas ou naquelas localidades não representa privilegiamento de algumas em detrimento de outras. O próprio IBGE tem demonstrado ao longo destes últimos meses, principalmente, que dispõe de um sistema seguro de levantamento de dados e disponibiliza, inclusive, seus resultados em trabalhos periodicamente divulgados. Algumas sendo mensais e outras anuais, além de números trimestrais e semestrais para determinados casos, estas verificações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística têm servido à população brasileira como importantes fontes de informações sobre o País.
Mas neste momento, quando o governo federal acena com a intenção de ampliar a abrangência de alguns programas de caráter social, como o Fome Zero e o Bolsa Família, é importante que se escancare a realidade apresentada pela pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas, até para eliminar um vício político que tem feito de alguns projetos um verdadeiro instrumento eleitoral. E o Fome Zero não escapa a essa regra vigente, a de que a miséria tem lugar certo e definido e, portanto, os recursos dos programas de socorro devem ser destinados às populações deste lugar.
Não é assim. As metrópoles, algumas delas riquíssimas devido às características produtivas, também escondem alguns milhares de miseráveis, que não estão somente em suas favelas. Às vezes habitam moradias localizadas em bairros que fogem aos padrões da pobreza, mas meses de desemprego e baixa renda os tornam tão miseráveis quanto os que moram em comunidades do Nordeste assumidas pelos políticos como ''exemplos de miséria''. Ou, em outras palavras, palanques para o País e o mundo.
Reforça-se uma posição frequentemente defendida por este espaço: programas assistenciais devem ter caráter emergencial, na medida em que as soluções para o problema da miséria estão na dependência de uma política econômica de resultados amplos. Mas como ainda vigoram indefinições neste âmbito, espera-se que os socorros cheguem até onde as populações, sejam do Nordeste ou do Sul, morem em grandes ou pequenas cidades, necessitem realmente de ajuda.





