A marca da fome

''Precisamos arrecadar mais e colocar mais dinheiro na política social'', disse na terça-feira o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao apresentar um balanço do programa Fome Zero, durante um discurso improvisado que teria durado longos 40 minutos. Segundo a ótica do presidente, programas como o próprio Fome Zero e também o Bolsa-Família só não atingiram plenitude porque os recursos foram insuficientes e a boa execução de qualquer projeto depende do crescimento econômico do País.
Parece haver um equívoco no pronunciamento de Lula da Silva, que também na terça-feira, por um daqueles descuidos imperdoáveis, brincou com o governador do Piauí, um dos estados castigados pela chuva, se ele estaria com medo de morrer afogado. Acontece que o Fome Zero e o Bolsa-Família só tiveram que ser lançados por seu governo por causa da falta de crescimento do País nos últimos anos. Um longo período de estagnação, decorrente de uma política monetária que priorizou manter a taxa inflacionária baixa a qualquer custo, inclusive a paradeira geral, criou pontas aguçadas que resultaram no aumento do desemprego e da queda de renda do trabalhador brasileiro. Como se não bastasse, a indústria se viu obrigada a manter ociosa parte de suas máquinas, pois sem renda não há consumo.
Portanto, o Fome Zero, tido pelo próprio governo como uma marca da era Luiz Inácio Lula da Silva, deveria ser admitido pelo presidente e seus assessores diretos como um programa estritamente emergencial. A fome de uma boa parcela da população brasileira, no momento em que Lula da Silva tomou posse, era vexatória. Assim como ainda é, pois o governo admite que as espécies de vales distribuídos às famílias carentes para serem trocados por alimentos não chegam ainda a todas as pessoas que têm necessidade.
E tendo caráter emergencial, ele não pode ser eternizado. Por outro lado, tendo sido instituído para acabar com uma condição vexatória, também não deve ser usado como uma marca, um trunfo político, um subsídio para a próxima campanha eleitoral. O Fome Zero, assim como o Bolsa-Família, devem realmente vigorar enquanto o governo não adotar uma política desenvolvimentista, que beneficie a todos os segmentos da sociedade, e aos poucos, mesmo que em ritmo um tanto lento, acabe com o contingente de excluídos que está espalhado pelo Brasil.
Também na terça-feira, o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, tratou de acalmar o mercado. Fez um discurso garantindo que a política de redução dos juros terá prosseguimento, dias depois dele mesmo ter enaltecido o espetáculo do crescimento, sem medo da inflação, e o Banco Central, na contramão, ter justificado que o Comitê de Política Monetária havia mantido a taxa de juro básica em 16,5% em sua última reunião, no mês de janeiro, por ser prudente em relação a um surto inflacionário.
Em meio a esta confusão, cujos efeitos no mercado são imediatos e podem levar, muito em breve, a uma falta de confiança da Nação em seu governo, é difícil esperar por uma política desenvolvimentista que acabe com a fome através de oportunidades iguais para todos.

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