OPINIÃO DA FOLHA
Os dois lados da moeda
Menos de uma semana após o titular da pasta da Fazenda discursar com euforia a defesa de um certo espetáculo do crescimento, em que a inflação é de menos diante da necessidade de despertar o desenvolvimento tanto almejado pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o Banco Central do Brasil acena com uma posição oposta. Na quinta-feira, conforme publicado por este jornal em seu caderno de Economia, a instituição, que é tão governo quanto o ministro da Fazenda, justificou a decisão da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), de manter a taxa de juro básica no mesmo patamar, contrariando expectativas de redução de pelo menos meio ponto porcentual.
É de bom-senso avaliar que o discurso do ministro foi um tanto eufórico. Infelizmente, numa economia como a que o Brasil enfrenta, crescimento significa risco de inflação. Virou uma espécie de cultura paralela imaginar que dinheiro na mão do trabalhador representa o desencadeamento da febre consumista e havendo demanda maior que a oferta, os preços sobem. Pior: esta cultura equivocada dá margem para parte do empresariado usar do oportunismo. Às vezes, mesmo que a oferta ainda esteja muito além da procura, só a possibilidade de consumo faz com que as máquinas remarcadoras sejam desengavetadas.
Então, o ministro da Fazenda não comete erro ao afirmar que não teme a inflação. Comete um grande equívoco ao despertar nos fazedores da inflação e estes não são os consumidores, mas os oportunistas a que o texto se refere linhas antes a possibilidade de colocar em prática em seus varejos, suas empresas intermediadoras ou suas indústrias uma norma baseada no modelo que foi muito comum na época do Brasil inflacionário: remarcação de manhã, à tarde e à noite, quando o procedimento não era feito também de madrugada.
Quanto ao Banco Central, este se sustenta nas projeções para temer o surto inflacionário. Talvez, de uma maneira técnica, até inclua em suas análises o risco representado pelos fazedores de inflação, pois se eles existem, e mesmo nas melhores fases do Real se manifestaram, merecem não somente estudos, mas principalmente medidas que dificultem suas práticas.
De qualquer forma, uma certeza é absoluta: no Brasil inflacionário, o trabalhador, por ter salário, era classificado por alguns especialistas da economia como o culpado pela situação. Nunca foi assim e agora há muito menos possibilidade disto acontecer. A renda do trabalho cai gradativamente e ninguém gasta desnecessariamente.





