OPINIÃO DA FOLHA
Locomotiva Brasil
Davos conclui, através de um de seus nobres participantes, que o Brasil, juntamente com a Argentina, será locomotiva à frente de uma composição formada pelos países emergentes, no rumo de um crescimento econômico sem precedentes. Cá entre os mortais, esta análise só aumenta as esperanças de dias melhores, com mais empregos, melhor distribuição de renda e possibilidade de enxergar o futuro, de forma que o trabalhador brasileiro possa planejar a sua vida familiar.
Estes três importantes componentes da vida de qualquer pessoa inexistem atualmente. Pois quando há emprego, a remuneração é baixa. Portanto, empregado ou desempregado, o trabalhador brasileiro vive num país que impede projeções. Se a intenção é de financiar uma moradia pelo sistema de habitação oficial, o risco é de, em pouco tempo, o negócio se tornar inviável e o contratante da operação ser configurado como mutuário inadimplente e ameaçado de perder tudo o que investiu naquele projeto que faz parte de sua vida e a de toda a sua família. Às vezes o desemprego que surge de uma hora para outra, ou a queda de sua renda, levam a frustrações como esta, do sonho da casa própria.
Uma locomotiva, de acordo com o nobre analista do encontro de Davos, é algo que puxa. E no caso específico deste estudioso, puxa para o desenvolvimento, o crescimento, a riqueza. Já na análise do sistema de transporte brasileiro, a locomotiva, exceto aquelas máquinas utilizadas por uma grande mineradora nacional, no Estado de Minas Gerais, é algo obsoleto, desprezado, muito embora sua viabilidade econômica seja inquestionável.
Um trem-bala pode ser classificado como uma locomotiva, apesar de seu avanço tecnológico nem se comparar com as máquinas impulsionadas a óleo cru que cruzavam a malha ferroviária brasileira anos atrás. Ou uma Maria Fumaça, tímida, lenta, a poluir o ar.
Qual seria a locomotiva Brasil? Aquela que cresce junto com a sua população, repartindo justamente os resultados do crescimento econômico? Aquela que prefere infestar a legislação brasileira com leis e planos emergenciais que visam atender paternalisticamente os chamados excluídos, de forma a mantê-los dependentes e, portanto, manipuláveis? Aquela que visa o crescimento somente de segmentos distintos da sociedade, estimulando o continuísmo de uma situação crônica?
Na rabeira da projeção feita em Davos, o ministro brasileiro da Fazenda discursa e fala em espetáculo do crescimento. O otismismo é importante, mas desde que seus reflexos contemplem a todos. Desemprego, baixa renda e falta de perspectiva no futuro transforma, infelizmente, o trabalhador brasileiro numa presa constante do sistema econômico. E, assim, ele prossegue, alheio aos recados dos especialistas, submisso a pressões diárias no caixa dos supermercados e na faixa demarcada da linha de produção. É como se fosse submetido diariamente a sessões contínuas de assédio moral, sem poder reclamar. Que a locomotiva seja moderna em todos os sentidos.





