OPINIÃO DA FOLHA
Discursos iguais para regras desiguais
O relativo desatrelamento do governo federal brasileiro em relação aos supostos parceiros internacionais, sobretudo as grandes potências econômicas, permite algumas posições mais ousadas diante de fatos prejudiciais à economia do País. Agora, junto com outros sete países, o Brasil pede compensações na Organização Mundial do Comércio, a OMC, em função dos prejuízos sofridos pela existência de uma lei de antidumping norte-americana, a Emenda Byrd, que permite que o governo dos Estados Unidos distribua às empresas do país parte do dinheiro coletado das sobretaxas de antidumping sobre produtos estrangeiros.
O documento do Brasil e dos sete países, incluindo o Japão, o Chile e a União Européia, deverá ser entregue hoje à Organização Mundial do Comércio. A posição da OMC é bem clara: a lei norte-americana viola as normas internacionais e deveria ser anulada. Ainda assim, os Estados Unidos, ignorando a posição do organismo internacional, já distribuiu US$ 710 milhões para as empresas do país, contemplando principalmente o setor siderúrgico.
Quanto ao montante arrecadado pelos Estados Unidos com a sobretaxação sobre os produtos estrangeiros, só os brasileiros geraram US$ 10 milhões em 2002. O Japão, com maior volume de exportações para os Estados Unidos, participaram no mesmo ano com US$ 60 milhões. A princípio, os norte-americanos não aceitam qualquer proposta de compensação. Na sexta-feira, o governo norte-americano, via cartas, comunicou a todos os países envolvidos que manterá essa posição na reunião desta segunda-feira.
É uma briga de grandes e o Brasil, que até o governo anterior participava, quando muito, timidamente deste tipo de confronto, agora se expõe e defende suas posições com mais firmeza diante da comunidade econômica internacional.
Evidente, Brasil e os sete países, entre eles potências como alguns membros da União Européia e o Japão, lutam contra uma outra potência acostumada a tratar seus parceiros como ralé, com o perdão pelo uso de um termo nada técnico. E é justamente com esta prepotência que este império econômico, que no momento enfrenta crises como qualquer outro país do mundo, mendiga aliados para que o seu bloco econômico se concretize.
A lição é esta. A idéia dos blocos, no mundo da globalização, poderia representar um avanço se as regras fossem claras e os objetivos fossem comuns. Mas se o país propositor não abre mão de privilégios, tudo o que já foi discutido e definido em relação ao bloco deixa de ter sentido. É preciso discutir muito mais. Quem sabe assim os grandes aprendam o verdeiro sinônimo da palavra diálogo.





