OPINIÃO DA FOLHA
A custo do aumento de preços
Sintomas e expectativas em torno do aquecimento da economia geram reflexos negativos no mercado, ainda que as alterações positivas no comportamento do mercado ocorram a passos miúdos, com algumas reações mais fortes em determinados setores e brandas em outros. Fruto de tais destemperos, o ano de 2004, em seus primeiros 20 dias, desponta com possibilidades preocupantes para boa parte da força produtiva do País, em que estão incluídos os empresários e os trabalhadores. Preços de alguns itens da matéria-prima pegam a indústria de surpresa, com altas acima dos índices oficiais.
A análise primária aponta para uma reação normal do mercado, pois se a economia está em fase de aquecimento, a demanda cresce com a melhora do consumo, o que determina a necessidade de mais produção. Para um País que mal está saindo de um longo período recessivo, fruto de política equivocada imposta em governos passados, aumentar a produção é sinônimo de elevação dos custos, o que exige revisão dos preços. Este enfoque segue também um vício histórico, com a culpa, automaticamente, recaindo sobre a lei de mercado: o preço subiu porque a demanda é maior que a oferta.
Por duas vezes, entre o meio da semana passada e este início da atual, este espaço alertou para uma justificativa infundada apresentada por determinados setores da indústria: o preço sobe porque os reajustes salariais do segundo semestre de 2003 pressionam o setor produtivo, aumentando seus custos. Também se enfatizou que as forças sindicais mais expressivas do País trataram de rebater este argumento, com números: a maioria das categorias que teve reajuste no segundo semestre do ano passado não obteve reposição das perdas. Pelo contrário, suas conquistas foram em índices abaixo da inflação.
No outro extremo há o governo, que acena com a promessa de uma política de geração de empregos. Mas a suspeita é de que haverá, de fato mais empregos, o que de forma alguma, pelo que se vislumbra, combaterá um outro problema sério da economia brasileira, a da queda da renda do trabalho.
Em síntese, da forma que se desenha o quadro, a tendência é de um aquecimento que somente servirá para mexer negativamente na base da fogueira inflacionária. Isto é perigoso. O que demonstra claramente que está faltando uma política econômica.





