OPINIÃO DA FOLHA
Via de duas mãos
O Brasil já foi gigante em governos passados, tanto quanto passou anos sob o estigma dos milagres, até chegar à fase do frango na mesa de todos, com o real de Fernando Henrique Cardoso. O resultado de todas as fórmulas impostas à economia nacional dá uma salada tropical confusa, que pode encher barrigas por períodos breves, outros mais duradouros, mas sempre aponta para um horizonte pouco animador. Década perdida, milagre brasileiro, ame-o ou deixe-o marcam, cada um ao seu jeito, etapas de triste memória.
Agora, na fase dos programas emergenciais, cuja necessidade é culpa de todos os que passaram pelo comando central do País antes de Luiz Inácio Lula da Silva, pois este assumiu o poder num momento crítico e sob a expectativa de melhoras a curto prazo, o Brasil é das possibilidades.
Alguns acenos positivos entre o final de 2003 e o início deste 2004, misturados a temores manifestados por alguns setores, dão um tom estranho à orquestra regida pelo governo. É como se algum destempero de origem desconhecida fosse capaz de desafinar os instrumentos e desestabilizar os músicos minutos depois de uma exibição maravilhosa, pois se hoje um setor da economia diz que as perspectivas para o amanhã são otimistas, chegará amanhã outro setor com previsão contrária.
Na semana passada, por exemplo, a Central Única dos Trabalhadores e a Força sindical revidaram com fortes puxões de orelhas às avaliações de um destes segmentos, envolvendo parte da indústria, cuja ótica era por demais simplistas: os preços de seus produtos sobem porque a carga salarial, com as reposições feitas em 2003, é pesada. Por números, as duas centrais sindicais mostraram que poucas categorias obtiveram no ano passado reajustes acima da inflação. O que significa que, pelo contrário, os salários é que foram atualizados de acordo com a alta do custo de vida.
Ainda assim a iniciativa privada, por força do próprio comportamento do próprio mercado, e não por influência de milagres, reage bem às intempéries da economia. Na edição de domingo deste jornal, duas reportagens despertam a atenção: numa delas, um empresa consegue economia no seu processo de produção a partir de sugestões apresentadas por seus funcionários; na outra, uma grande montadora divide seus lucros com os trabalhadores, prática que há tempos não se ouvia falar, embora se saiba que esta política inteligente esteja presente em algumas das mais importantes organizações empresariais do País.
Crescer juntos, sem milagres. A fórmula dá resultados, mas há ainda quem se negue a praticá-la. O Brasil precisa de uma política econômica para que a iniciativa privada possa trilhar por ela. O resto depende da sociedade e, ao que se sabe, dois componentes essenciais dela têm plenas condições de fazer o carro partir sem trancos, o empresariado e o trabalhador. Nas reportagens de domingo, um exemplo é o do empregado estendendo a sua mão e o outro é o do patrão distribuindo e gerando mais riquezas. Outros poderiam seguir estes exemplos.





