A economia em xeque
Uma empresa de consultoria marcou a passagem de ano com um relatório pessimista distribuído aos seus clientes. O documento analisa os prováveis maiores problemas políticos de 2004 e destaca: a falta de iniciativas do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, mais até do que a continuidade do convencionalismo econômico, pode gerar riscos para o crescimento sustentado da economia brasileira.
Falta de iniciativa e continuidade do convencionalismo são, na verdade, dois problemas que parecem um só. O que ocorreu em 2003, no primeiro ano do governo de Lula da Silva, foi a ausência da equipe econômica com planos incisivos nos momentos em que medidas vigorosas se fizeram necessárias. Em parte porque a própria expectativa, com a mudança de governo, é normalmente a da possibilidade de algum pacote com modelo econômico diferente.
Mas o pacotaço não veio e a economia brasileira, após o período de transição, sofreu os efeitos do desgaste do modelo anterior, já muito combalido nos últimos meses da gestão anterior. Profundamente recessivo, o real de passado pródigo entrou na virada de comando no Palácio do Planalto com o impacto também das especulações, pois saía um presidente de centro e entrava, para qualquer efeito, um de esquerda, com o primeiro tendente em algumas áreas mais para a direita e em outras mais à esquerda, e o segundo plenamente alinhado ao centro, mas não dispensando acenos também à direita. Imagine o leitor o impacto que o samba ideológico causa nos modelos econômicos?
De qualquer forma, pode ter muita razão a empresa de consultoria que alerta os seus clientes com um relatório recomendando cautela com o Brasil. O ano de 2003, afinal, foi de muita sorte. Se faltaram um pacote ou um conjuntos de planos para a economia, por outro lado sobraram fatos que tiraram o mercado de uma situação de sufoco e desespero e levaram a iniciativa privada a uma reação.
E como já se analisou anteriormente, a agricultura brasileira foi majestosa, após anos seguidos de desempenho normal ou até de frustrações. Em 2003, ocorrências externas, inclusive, proporcionaram ganhos justos aos produtores de soja, animaram os que trabalham na produção de laranjas e, na pecuária, fizeram a vaca louca nos Estados Unidos despertar os bovinocultores brasileiros a encararem a atividade com mais atenção.
Somente fatores externos, porém, não bastam. É preciso muito mais. A onda de bons fluídos precisa ser complementada com bons projetos. As exportações abrem as porteiras do mundo para a produção nacional, mesmo com os obstáculos que se impõem, principalmente em território norte-americano, para dificultar a entrada do que chega de fora. A formalização de mais um mercado comum não incita. Pelo contrário, cria receios. Para enfrentar todos estes problemas, há necessidade de algo palpável. Um pacote, com um conjunto de regras claras, por exemplo, talvez ajudaria.

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