OPINIÃO DA FOLHA
Encontrando culpados
Uma justificativa polêmica apresentada por alguns segmentos do empresariado brasileiro gera reações das maiores centrais sindicais do País, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Força Sindical. De acordo com estes segmentos empresariais, há necessidade de reajuste nos preços de seus produtos devido à pressão de custos, entre outros fatores, pelos aumentos salariais concedidos à categorias com data-base no segundo semestre de 2003.
As centrais sindicais esclarecem que poucas categorias obtiveram reposições salariais iguais ou superiores à inflação acumulada até as suas datas-base. E lembram ainda que no segundo semestre do ano passado a campanha salarial foi unificada.
Verdade. Pouquíssimas foram as categorias que tiveram os seus salários reajustados acima dos índices oficiais e algumas ficaram no zero, sem reposição das perdas. A CUT tem inclusive números: em São Paulo, apenas 20,36% das categorias cutistas obtiveram reposição acima do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) em suas respectivas datas-base; 23,71% recuperaram a inflação; e 55,93% ficaram abaixo do INPC no período.
Teriam tido razão estes empresários, que representam apenas uma parte de um conjunto muito maior, se limitassem os itens de suas justificativa a somente o que realmente influiu em suas contas, jogando os lucros para baixo. É o caso do custo da matéria-prima e da carga tributária, esta última devido à elevação da alíquota da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) de 3,6% para 7%.
E ainda absorveram, como aconteceu com toda a população brasileira, outros aumentos muito acima da inflação, nas tarifas da energia elétrica, da água, do telefone, entre outros, além de elevações registradas em inúmeros itens que têm os preços administrados ou monitorados pelo governo.
Se as despesas com o vale-transporte subiram, não significa que o empregado passou a custar mais caro por causa desse item. O poder público autorizou o aumento reivindicado pelas empresas de ônibus, que inclui em suas planilhas gastos diversificados com combustíveis, pneus etc., e não somente com o reajuste dos funcionários do sistema.
Se o pedágio subiu, é insustentável o argumento de uma empresa que administra rodovias de ter elevado o preço desta tarifa por causa de aumentos a seus funcionários.
O que ocorre, portanto, é que, na ponta do lápis, exceto alguns setores do funcionalismo público e pouquissímos da iniciativa privada, a maioria enfrentou o ano de 2003 sem a reposição das perdas. E reforça-se que algumas categorias ficaram no zero.
O trabalhador não merece esta culpa.





