OPINIÃO DA FOLHA
Sem voz e sem vez
Reforma em uma ponta, desgaste em outra. Enquanto os discursos enaltecem supostas conquistas do governo federal com as mudanças na Previdência Social, os médicos peritos do Paraná, em greve desde o dia 3 de dezembro, são obrigados a se fantasiarem de palhaços para um protesto em Curitiba. De acordo com a própria assessoria do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), cerca de 850 perícias médicas deixam de ser feitas diariamente em todo o Paraná.
Mães trabalhadoras que estão retornando ao trabalho após o período de licença referente à maternidade, pessoas que se acidentaram ou foram acometidas por algum tipo de doença e trabalhadores que buscam a aposentadoria por invalidez estão entre estes 850 contribuintes que necessitam de perícia médica diariamente. E se for levado em conta que a greve foi iniciada no início de dezembro, teme-se que muitas pessoas estejam na dependência desses exames.
A reforma da Previdência trouxe, sim, mudanças. Mas uma análise fria e realista mostra que as alterações propostas e aprovadas, depois de um jogo de pressão violento por parte de setores interessados em manter privilégios, resultou em quase nada no objetivo de sanear o sistema. E, de uma forma, melhorar, dinamizar, tornar a prática de fraudes mais difícil.
Enfim, o balanço é que a Previdência, com a reforma, agora é uma grande árvore na qual foram feitos enxertos, inclusive melhorando condições de muitos segmentos que viviam pendurados no sistema. Ou, em outro comparativo muito comum, uma enorme colcha de retalhos, com remendos feitos pelos grupos de pressão.
Provavelmente dois setores pouco privilegiados se debatem em torno das questões que obrigam os médicos peritos a fazerem greve: de um lado, os próprios profissionais, e de outro, os que deveriam ser beneficiados com os serviços desses profissionais, visto que os trabalhadores da iniciativa privada são a maioria também nas filas do INSS.
O médicos peritos pedem pouco: concurso público, abolição da terceirização de perícia médica, melhoria nas condições de trabalho e de atendimento aos segurados e salários compatíveis ao desgaste e dedicação da profissão. Os segurados, muito menos: um atendimento sem muita espera. Tudo isso é possível em tempo recorde, talvez o de uma pequena lasca do que foi gasto nas discussões da reforma da Previdência. E com benefícios muito mais amplos, ainda por cima.





