Relações distorcidas

Pensamentos ufanos não têm qualquer serventia na eliminação de uma condição presente na economia brasileira, sobretudo agora, um ano após a posse de uma gestão governamental eleita com a promessa de mudanças. O trabalho enobrece, isso é verdade. Mas na medida em que a força produtiva do País adquire essa espécie de privilégio, o de ter um emprego que satisfaça suas necessidades econômicas, há de merecer a contrapartida na forma de aperfeiçoamento profissional, estímulos em termos de melhoria da qualidade de vida e, principalmente, uma relação que lhe dê a certeza de, ao mesmo tempo, ser útil para determinado sistema e de estar crescendo dentro dele.
O ano de 2003 foi encerrado com análises preocupantes feitas por alguns segmentos da economia. Dois movimentos opostos praticamente chegaram ao ponto de colisão, só não ocorrendo um desfecho devido à virada do ano e a ilusão de que suas trajetórias poderão apresentar desvios positivos. De um lado, o tímido crescimento da economia nacional, face à reação do mercado aos desacertos que predominaram durante quase todo o período, fato que ocorreu por conta própria, sem que houvesse uma medida governamental aliviadora. De outro, a constatação, por parte do próprio setor empresarial de alguns segmentos importantes e com o reforço substancial dos analistas mais inteligentes, de uma queda progressiva da renda do trabalho.
A conclusão não poderia ser outra. Quanto maior a perda dos ganhos do trabalhador, mais aguçado será o reflexo no consumo. E embora seja primário, é indispensável complementar que sem consumo o setor produtivo se vê obrigado a impor um ritmo mais lento à linha de produção, o que pode causar desemprego e, no fim da ponta, o retorno de uma situação econômica caótica, pressionada por problemas sociais graves que exigem do governo o uso de recursos públicos para matar a fome, vender gás mais barato e sustentar milhões de pessoas que, combalidas e envolvidas por uma bola que se agiganta, deixam de perceber qualquer sentido naquilo que se diz em tom discursivo: o trabalho enobrece.
No passado, o Brasil da inflação vivia com o gatilho acionado. A renda do trabalhador subia de acordo com o aumento do custo de vida, mas ainda assim num patamar em índices de reajuste. Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, em seus planos econômicos, instituíram a modernidade com a receita tirada de teorias em moda. O liberalismo e o neoliberalismo passaram a ser abordados nos palanques e nos pronunciamentos oficiais. A livre negociação, por outro lado, dominou as assembléias sindicais.
A receita é boa, mas desde que o prato seja adequadamente preparado. Não foi isso o que ocorreu e os reflexos são fortes agora. Portanto, a regra, flagrantemente equivocada, é única: aumento salarial para quem pode fazer greve e zeramento para quem não pode. A renda do trabalhador brasileiro cai, o consumo, exceto nas épocas festivas e de estimulação do consumo, se deteriora. E alguns setores da economia teimam em achar que tudo será diferente amanhã. Ilusão num contexto onde impera a economia do achismo.

mockup