Vaga para quem merece vaga
Milhares de estudantes tentam a partir deste domingo vagas na Universidade Estadual de Londrina, numa disputa que coloca, lado a lado, pessoas de diferentes localidades e variados níveis de formação nos ensinos fundamental e médio. Também participam do vestibular candidatos de famílias dos mais distintos padrões sócio-econômicos, fator que, em parte, determina o nível cultural dos estudantes.
Há portanto entre os vestibulandos aqueles com melhores chances, por terem um currículo escolar privilegiado, elaborado com base em estabelecimentos de ensino pagos e bem equipados. Essas formação, devido às condições financeiras das famílias, pode ainda ser complementada com um bom cursinho pré-vestibular. Outros são provenientes do ensino público e mal tiveram a chance de frequentar um cursinho.
Esse tipo de disputa é, infelizmente, equivocadamente seletivo, assim como parece estar cercado de erros a análise de que o aluno de uma escola paga está melhor preparado para entrar numa universidade. Mas esta é a realidade. Primeiro porque o ensino público enfrenta há anos uma fase quase de misericórdia, devido à falta de investimentos do Estado principalmente no magistério. Professores mal pagos e pouco reciclados são obrigados a usar de seus próprios recursos para a aquisição de um livro ou a participação de um curso importante para a carreira.
Nas salas de aula, estes mestres se deparam, ainda por cima, com alunos que frequentam as escolas depois de uma jornada cansativa de trabalho e de minutos perdidos em ônibus para se locomoveram do trabalho para a escola, sem um banho e sem a janta. Quanto ao ensino pago, laboratórios mais equipados e professores estimulados ensinam com mais disposição alunos mais descansados. Errado? Já nos cursinhos preparatórios, embora alguns mudanças já estejam em vigor nos concursos vestibulares de algumas das mais importantes instituições de ensino superior, ainda a regra básica é o macete. E num mercantilismo distorcido, melhor ensina macete quem mais cobra.
Mudar esta situação demanda tempo e muito trabalho. Merece vaga em uma universidade quem está disposto a estudar e apresenta vocação para isso. Caso contrário, persistirão muitos erros de agora: o estudante que queria ser médico mas passou em geografia por não ter recursos para disputar vaga em medicina; ou aquele que se formou em medicina e gostaria de ser um arquiteto.
A mudança deve começar do ensino fundamental e se tornar mais incisiva no ensino médio. O Estado tem um papel a cumprir e, sendo assim, terá que chegar o dia em que todos os estudantes com potencial terão que ter suas vagas garantidas nos cursos que pretendem. É hora do Brasil começar a pensar nisso, para que os concursos vestibulares não sejam tão fortemente caracterizados como um meio de agitar a cidade e promover vendas.

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