Decisão conciliadora
Diante de uma situação delicada em relação aos imigrantes ilegais que trabalham nos Estados Unidos, o presidente norte-americano George W. Bush anunciou anteontem um plano para legitimar temporariamente estes trabalhadores. Em relação ao Brasil, uma decisão da Justiça, que por um lado está cercado pela coerência, uma vez que se pauta numa relação de igualdade entre os povos, repercutiu com estrondo e se não surtiu represálias, pelo menos serviu para fortalecer a fiscalização sobre os brasileiros que já estão nos Estados Unidos ou tentaram entrar naquele país nestes últimos dias.
A decisão brasileira foi de ''dar o troco'', determinando a identificação rigorosa de todos os norte-americanos que entram no Brasil, com o recolhimento de impressão digital e de fotografia, da mesma forma que é feito com os brasileiros que lá chegam a turismo ou a trabalho ou estudo. Mal a medida foi posta em prática, a ação dos norte-americanos à caça de brasileiros ilegais já nos Estados Unidos e de imigrantes que tentavam entrar no país resultou, até o início da semana, na detenção de mais de mil trabalhadores, grande parte do Estado de Minas Gerais.
Embora a oposição considere o plano conciliador de Bush uma medida eleitoral, o seu efeito prático é importante. Por um lado, os brasileiros detidos nos Estados Unidos têm um custo elevado para os cofres daquele país, inclusive nas despesas de deportação. Houve queixas de detidos sobre a atuação da representação brasileira nos Estados Unidos. Claro, sentiram-se desamparados ao terem, de um momento para o outro, o sonho de melhor renda e de futuro mais promissor estancados, com a detenção.
Se o Congresso americano aprovar a proposta de Bush, oito milhões de imigrantes ilegais terão suas situações amenizadas temporariamente e não terão que se esconder dos funcionários da imigração. Em detalhes, os vistos para quem já trabalha ou pretende trabalhar naquele país será de três anos, renovável por outros três, desde que haja um compromisso de um empregador.
Eis, portanto, uma medida muito mais importante daquela acertada entre Brasil e Portugal recentemente. O que, no mínimo, evidencia que o Brasil pouco faz pelos seus trabalhadores que tentam melhorar de vida além das fronteiras. São os dekasseguis no Japão e milhares de outros nos Estados Unidos, na Inglaterra e em Portugal. Deixaram o Brasil porque aqui não encontraram condições de vislumbrar o futuro, tiveram provavelmente seus sonhos destruídos, se decepcionaram com a compra financiada da casa própria. Com baixos salários, assistiram os brasileiros que aqui são obrigados a ficar a administrarem suas contas com sacrifícios, devido à queda da renda que se acentua a cada mês.
E as autoridades brasileiras permitem que empresas inescrupulosas explorem estes trabalhadores, prometendo entrada fácil nos países onde estão concentrados o maior número de brasileiros. Em troca, cobram altos valores, como se o trabalho no exterior fosse, a cada remessa de trabalhadores, a abertura de um novo eldorado. Mas, para a maioria, o que ocorre é apenas uma aventura de resultado amargo e custo alto.

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