Hora de combater os monstros
Realizar um balanço de 2003 é um exercício penoso para grande parte da população brasileira. Há exatamente um ano, no dia 31 de dezembro de 2002, o Brasil estava à véspera da posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mais do que a simples trocando do comando central do País em Brasília, esperava-se o fim de um período de oito anos, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, caracterizado por discursos bem feitos, de um típico intelectual, e uma economia ao ponto da ressurreição de um grande monstro nacional: a inflação.
O período de transição de governos chegava ao fim. As expectativas eram muitas, passada a fase de fantasmas criados por setores mais à direita, de um predomínio ideológico da esquerda representada por Lula da Silva. O centro de Fernando Henrique Cardoso, mais à direita em determinados momentos, levemente à esquerda em outros poucos, deixava um saldo econômico desesperador e uma dívida social para com a maioria da população de enorme proporção.
A palavra de ordem era a mudança apregoada desde a campanha eleitoral pelo candidato vitorioso nas urnas. Diferente do Brasil Gigante do passado, imposto e assimilado por alguns devido à eficiência da propaganda oficial, o Brasil das Mudanças era, há um ano, algo naturalmente absorvido. Ou seja, acreditava-se realmente em novos tempos.
Doze meses depois, não deixa de ter razão quem diz que o País mudou. Talvez não na proporção que se esperava e muito provavelmente não em consequência de medidas governamentais milagrosas, o Brasil respira o vento da esperança. A economia saiu de um longo período de recessão, provocado pela política econômica do governo anterior, cujos primeiros efeitos foram a contenção da inflação, meio que na marra, mas que depois descambaram para uma subida de preços dos gêneros de primeira necessidade, às vezes por força da lei de mercado, outras por reajustes autorizados.
Numa engenhosa conta, os índices oficiais que medem o custo de vida sempre se mostravam baixos, embora a família brasileira gastasse mais, a cada mês, para comprar menos. O Natal de 2002 foi o da subida de preços. O Ano Novo custou para o brasileiro muito mais que as despesas de Natal, pois os reajustes passaram a ser quase que diários, de um pulo a outro ao varejo.
O início de 2003 foi marcado pelo anúncio ou pelo lançamento de muitos programas emergenciais. Medidas necessárias, para uma situação de pobreza vexatória. E outros programas de natureza idêntica se sucederam, infinitamente. Não se anunciou uma política econômica bombástica, embora se admita ter havido reajustes.
O mercado reagiu por conta e fez da economia combalida uma possibilidade. Alguns setores do empresariado nacional apostam em melhoras em 2004. Outros ainda titubeiam. O desemprego agora é o principal monstro e caminha ao lado da queda na renda do trabalhador, como se formassem um manto encobrindo o País. Espera-se que, da mesma forma como aconteceu com a economia como um todo, o mercado reaja a estas duas situações preocupantes, pois sem renda não haverá consumo e as expectativas de melhoras cairão por terra. Chegou, portanto, a hora de analisar melhor a importância do trabalho.

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