O Brasil precisa de técnicos
A insuficiência de investimentos na defesa sanitária pode frear as vendas externas de carne bovina, embora o momento seja de uma abertura atípica para o produto brasileiro, devido ao surgimento da doença da vaca louca nos Estados Unidos. O alerta foi feito ontem pelo presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), o ex-ministro da Agricultura Marcus Vinicíus Pratini de Moraes.
A questão é mais séria do que parece. As perspectivas são de aumento de 15% a 20% mas exportações de carne bovina brasileira em 2004, devido à vaca louca, passando de 1,3 milhão de toneladas para 1,6 milhão de toneladas. Um acréscimo expressivo e uma chance para não ser desperdiçada.
No entanto, o presidente da Abiec adverte que somente em 2003 deveriam ter sido contratados pelo Ministério da Agricultura 450 veterinários e agentes de inspeção, procedimento que deixou de ser realizado pelo órgão devido à falta de recursos. Sem essas contratações, não há profissionais suficientes para a inspeção da carne brasileira, como também não há frigoríficos equipados suficientes para certificar o produto brasileiro.
Não há dúvida sobre a importância da sanidade animal para estimular o mercado externo. A aftosa, em passado recente, trouxe muitos prejuízos para a carne brasileira. O exemplo da vaca louca, nos Estados Unidos, é muito importante para o Brasil: propagada a ocorrência de um caso da doença, a repercussão correu veloz e seus efeitos mais rápidos ainda, interferindo em desistência de contratos e prejuízos de grande monta.
Atualmente, o Brasil detém cerca de 50% do mercado de carne do mundo e tem as porteiras ainda fechadas por México, Estados Unidos, Canadá, Japão, Coréia e países da Oceania. A razão é simples: o gado brasileiro ainda não é considerado livre da febre aftosa. Não fosse isso, a estimativa do ex-ministro é de que o País conseguiria dobrar as exportações em uma década.
Dados reforçados pelo presidente da Sociedade Rural Brasileira, João Sampaio, dão conta que o Brasil dispunha este ano de um orçamento de R$ 80 milhões para a defesa sanitária animal, mas somente R$ 12 milhões foram gastos. O orçamento de 2004 destinaria somente R$ 63 milhões, mas seriam necessários R$ 130 milhões. A promessa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em recente encontro com líderes do setor de carne, foi a de destinação de mais recursos.
A posse do novo governo, no início de 2003, resultou, como sempre ocorre em trocas de comandos, em incontáveis contratações de apadrinhados. Em sua maioria, gente que faz alguma coisa em algum setor. Áreas como a saúde, a agricultura e a pecuária, no entanto, precisam de bons técnicos, cujas atividades profissionais a maioria dos apadrinhados desconhece. Hora, portanto, de mudar.

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