OPINIÃO DA FOLHA
Natal à brasileira
O Natal de 2003 não terá para um bom número de famílias brasileiras o brilho que todos esperam. Fatores diversos, sobretudo os desarranjos da economia nacional, fizeram dos meses que trouxeram até esta importante data um período de suor e sacrifícios. Assim, o balanço do ano é de saldo negativo para muita gente, apesar das pesquisas apontarem para uma melhora nas últimas semanas e, principalmente, para expectativas mais otimistas.
Ainda assim, a religiosidade da população brasileira faz com que as pessoas das mais diferentes classes sociais, agora que já chegou praticamente ao fim a fase do consumo, tenham o Natal como uma data para ser comemorada com um espírito de solidariedade e coletividade impressionante.
Famílias dos mais carentes bairros terão com certeza reservado alguma economia para uma ceia entre o fim da noite desta quarta-feira e o início da madrugada de quinta, por mais modesta que seja a mesa. A idéia da fartura já deixou de ser tão importante, pois o que prevalece é a necessidade das pessoas, sobretudo aquelas mais simples, comemorarem com parentes, amigos e vizinhos um acontecimento que representa muito para a humanidade, pois diz respeito à esperança.
É diferente do que ocorre em alguns países em fase de desenvolvimento mais avançado, onde a religiosidade perdeu importância e a confraternização, quando muito, é tema de discursos, uma vez que a disputa profissional e a luta diária pela sobrevivência fazem amigos se olharem com desconfiança. Exagero? Nada disso. O ser humano, quando moldado a ser exclusivista pelo meio onde vive, torna-se duro até consigo mesmo.
Então o que aqui acontece, além da manifestação emocional das pessoas, é mais do que lá fora se apregoa, com as renas, a neve e o verde das árvores natalinas contrastando com o branco imenso dos campos imaginários, de onde surge o velhinho com sacos de presentes.
Sem o peso de uma submissão aos costumes e à condição a que é obrigado a viver, para pagar despesas com alimentação, estudos, saúde, segurança, transporte e tudo mais, o brasileiro improvisa no Natal para manifestar que está feliz pela possibilidade de esperar por dias mais justos para todos.
E na maioria dos lares, troca a castanha pelo churrasco e ensaia passos de samba, enquanto o pagode e a música sertaneja sacodem as paredes das casas. É a forma de dizer para o mundo que está vivo e pronto para enfrentar mais um ano na caminhada por um futuro de menos sacrifícios e mais compensações.





