OPINIÃO DA FOLHA
Campanha dos milhões
A campanha nacional de combate a acidentes de trânsito para as festas de final e início de ano vai custar para a população brasileira R$ 3,8 milhões, conforme anúncio feito na sexta-feira em São Paulo pelos ministros Anderson Adauto, dos Transportes, e Olívio Dutra, de Cidades. As inserções em emissoras de rádio e televisão começam já neste domingo e prosseguem até o dia 31. Ou seja, por uma quinzena de propaganda, o povo paga o preço de milhares de cestas básicas, algumas centenas de unidades habitacionais e bons projetos voltados para os segmentos mais necessitados.
O Código de Trânsito Brasileiro teve o seu aniversário de quinto ano comemorado em 2003. Portanto, não se trata de uma legislação recente, desconhecida e ainda por ser complementada. O motorista conhece o seu conteúdo, principalmente quando se depara na caixa dos Correios com uma notificação de multa devido a algum tipo de infração. Como se fosse a linha de produção de uma grande indústria, as multas se processam com rapidez espantosa e são praticamente inapeláveis. A maioria dos punidos merece a pena. Alguns, pegos de surpresas, tentam recursos que nem sempre são deferidos.
Mas eis que o governo, para justificar sua campanha de Natal e Ano Novo, mostra números expressivos. Em 2003, o número de acidentes aumento 6% em relação a 2002. Foram 94.210 acidentes no ano, a um custo de cerca de R$ 10 bilhões, segundo o Departamento Nacional de Trânsito, o Denatran.
Se é assim, algo está errado e procedimentos devem estar equivocados. Se as multas, que sustentam de estruturas municipais a federais, ocorrem em quantidades consideráveis, então o que se pode analisar é que elas, simplesmente, não estão acordando os motoristas para a necessidade de conduzir seus veículos com respeito aos demais ocupantes de carros, aos pedestres e à coletividade como um todo.
E resolveria o problema uma campanha de pouco mais de 15 dias, para se ter cuidado nas estradas durante os feriados de Natal e Ano Novo? Mais grave ainda, a um custo de R$ 3,8 milhões. É muito dinheiro para uma campanha de tão pouco efeito.
O governo acena com a possibilidade de tentar a diminuição do número de acidentes até o ano de 2006, com a recuperação das rodovias, o aumento da fiscalização, o uso de tecnologias contra excesso de velocidade e a melhoria da conscientização do motoristas através de campanhas. Outras campanha caríssimas vão resolver o problema e chamar o motorista à consciência? Duvidável.
Quanto aos demais procedimentos, vê-se que não passam de obrigações do Estado, pois a população paga impostos justamente para ter, entre outros itens importantes, estradas em condições trafegáveis.
Então que se tente uma receita mais racional, de custo menor e de efeito permanente. Que o governo cumpra a sua parte. Assim os motoristas imprudentes serão levados à razão. Enquanto apenas se estabele a legislação e se faz da cobrança de multa uma indústria, o outro lado, o dos motoristas, se rebela e abusa do seu direito de conduzir veículos da maneira que bem entender. Quando o governo tiver consciência, o motorista também o terá. E que não se busque essa consciência a um preço tão elevado. R$ 3,8 milhões dariam para recuperar bons trechos de estradas.





