A vez e a voz da paz

O firme pronunciamento feito ontem em Oslo pela advogada iraniana Shirin Ebadi, ao receber o prêmio Nobel da Paz, serve de alerta para toda a humanidade. ''As preocupações dos defensores dos direitos humanos aumentam quando vêem que eles são violados não só por aqueles que lhe fazem oposição notoriamente (...), mas também pelas democracias ocidentais.../...Nos últimos dois anos, alguns Estados violaram princípios universais e os direitos humanos utilizando os acontecimentos do 11 de setembro (de 2001) e a guerra contra o terrorismo internacional como pretextos''.
A Nobel da Paz, em clara referência à postura do governo norte-americano, toca numa ferida que basicamente o mundo sabe que está aberta e sangrando. Mas poucos, por diplomacia equivocada ou receio de tocar no ponto frágil das relações internacionais, assumem a causa de maneira persistente e forte.
Não há nenhum tom suspeito nas afirmações de Shirin Ebadi. O que ela menciona é o extrato de uma realidade incontestável, tanto quanto a referência feita aos prisioneiros retidos pelos Estados Unidos em Guantánamo, incluindo crianças, segundo denúncias recentes apresentadas por organizações internacionais de direitos humanos. São prisioneiros políticos e não criminosos comuns. E ficam mantidos sem a proteção prevista nas convenções internacionais de Genebra, pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e pelos textos das Nações Unidas sobre os direitos civis e políticos, conforme mencionou a Nobel da Paz.
Como se percebe, as feridas e não apenas uma ferida sangram. O mundo, que anos depois da guerra fria ainda se divide em Ocidentel e Oriental não apenas geograficamente, mas politicamente, também recebeu o seu puxão de orelhas. Shirin Ebadi denunciou o que chama de duplicidade moral dos países ocidentais, quando questionou inclusive o cumprimento de algumas resoluções da própria Organização das Nações Unidas, a ONU, que às vezes deixam de acontecer para favorecer certos interesses.
Ou seja, não há apenas um vilão posando de santo. Os Estados Unidos pecam, aproveitando-se de sua supremacia diante dos outros. Os outros mostram-se fracos e titubeantes perante o dominador, que já não propõe, mas determina.
O discurso parece antigo e superado. Engano. É histórico e muito presente. O mundo, de maneira geral, só vê o eixo do mal no mapa alinhavado pelos poderosos. Shirin Ebadi, uma iraniana, não é somente Nobel da Paz, mas representante de um país incluído pelos Estados Unidos naquilo que Bush classifica de eixo do mal. E, endossando as posições equivocadas, o mundo também se equivoca. Que a Paz, conquistada com seriedade, tenha a sua voz nessa mulher.

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