OPINIÃO DA FOLHA
Peneira para se proteger da chuva
Queda na renda do trabalhador reflete na produção industrial, aponta pesquisa. A reação é normalíssima e não poderia ser diferente. Com o poder de compra descendo gradativamente nos últimos anos, mês a mês o orçamento doméstico torna-se mais apertado e como não há outra alternativa senão a da diminuição das compras, nem é preciso ser um especialista para entender que, sem consumo, não há o que se produzir. Produz-se o necessário ou corre-se o risco de amargar encalhes.
Notícia divulgada no início desta semana, com base em levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, mostra muito bem esta situação. Houve um recuo da produção industrial de 0,5% em outubro, após três meses seguidos de crescimento. O resultado assustou os analistas, que esperavam, no mínimo, a manutenção do ritmo industrial, quando não se apostava em variação para cima, de até 2%.
A justificativa do IBGE é de que o resultado refere-se a apenas três dos 20 ramos pesquisados da produção, o de química, o de alimentos e o de produtos farmacêuticos, tendo os demais setores apresentado indicadores positivos. No entanto, o mercado demonstra preocupação excessiva e cogita inclusive sobre mais um sinal claro de desaquecimento da economia. Até porque dois dos três ramos que apresentaram quedas são os mais importantes da indústria nacional: o de alimentos, que retraiu 0,7%, e o de química, com retração de 1,6%.
O mercado também reduziu a projeção de crescimento da economia em 2003. Há um mês estimado em 0,66%, o novo percentual apresentado durante a semana projeta apenas 0,25%, de acordo com levantamento semanal feito pelo Banco Central entre cerca de 100 bancos e empresas de consultoria. Com isso, desce também a projeção sobre o Produto Interno Bruto, o PIB, que pelas estimativas deve encolher 0,11%. O PIB é o total de riquezas produzidas pelo País no período.
Com renda em baixa, não há consumo em alta. Se não há consumo, menos se produz. É a lei do mercado, incontestável, denunciadora de uma condição que teima em desvincular a mão-de-obra do processo de desenvolvimento econômico.
Incontáveis linhas de crédito, inclusive para a população de baixa renda, foram lançadas. A tentativa foi de estimular o consumo, inclusive em benefício de alguns setores, como o de eletrodomésticos. Plano equivocado, pois hoje o consumidor só entra no financiamento em último caso. Muitas vezes, para saldar dívidas.
Ou, como manifesta o Serasa, o eventual aumento da oferta de crédito ao consumidor pode elevar a inadimplência em 2004. Muito óbvio.





