OPINIÃO DA FOLHA
O lado humano da Justiça
A Justiça mais perto do ser humano, que extrapole os aspectos legais e seja inclusive mais solidária. Esta proposta, se não é nova, tende a ser rara num momento em que notícias de corrupção envolvendo juízes estampam rotineiramente as páginas dos jornais.
Seu autor, ao contrário de ser polêmico, ganha respeito por posições inusitadas. Uma delas ganhou destaque nacional e é repercutido como exemplo de despacho humano e solidário. João Baptista Herkenhoff, 67 anos, juiz de direito aposentado e docente da Universidade Federal do Espírito Santo, certa vez concedeu liberdade a uma mulher grávida que estava presa, para homenagear a mulher e a mãe, com palavras que causaram emoção. Usando de sabedoria ímpar, ponderou inclusive sobre a condição da ré, uma prostituta.
Também autor de vários livros, seus textos denunciam, felizmente, a existência de um jurista preocupado com as questões sociais e o papel do direito nesse contexto. De nenhuma forma João Baptista Herkenhoff é, entretanto, um socialista. Este jurista, que esteve em Londrina na semana passada para o lançamento de duas obras e palestra a estudantes do curso de direito da Universidade Estadual de Londrina (UEL), é na verdade uma pessoa comprometida com a sociedade na qual vive.
Uma frase exemplar merece ser enfatizada: ''O jurista que se enclausura exclusivamente no terreno da problemática, do direito como lógica, tem uma visão que não se presta para proporcionar justiça ao povo''. Eis a questão.
Juristas, de uma forma generalizada, há décadas deixaram de merecer respeito. Tanto quanto em outras profissões, também alguns deles passaram a ser motivo de ironias e críticas. Histórias de corrupção e desmandos colocaram este profissional na corda bamba e, repete-se, este não é um privilégio ou desmerecimento apenas do jurista. Tem-se repetido neste espaço, insistentemente, que em qualquer categoria há bons e maus profissionais, tanto quanto existem os medianos.
Mas de homens que trabalham com a lei espera-se isenção absoluta. É assim que o povo via um advogado, desde o momento de sua formatura. Só depois, nos meios mais esclarecidos, as ironias foram se tornando mais evidentes, como a daqueles que esperam por clientes nas portas das delegacias. Infelizmente, esta é uma condição de mercado de trabalho e, apesar do tom irônico, aquele que faz isto cumpre um papel, pois atende provavelmente os menos privilegiados. Portanto, atender este ou aquele não é demérito. A forma de processar o caso é que, às vezes, exige questionamento.
Muito mais questionável que estes são aqueles que transformam a Justiça numa grande indústria. Assim, transformam as questões trabalhistas, de trânsito e de outras áreas numa fonte de recursos. Estes, junto àqueles denunciados por corrupção, não enxergam jamais o homem.





