OPINIÃO DA FOLHA
Os dois lados da guerra
Os soldados norte-americanos que estão fora de suas bases existem. Na semana passada, alguns deles tiveram a oportunidade de fazer uma refeição com o presidente George W. Bush, que numa estratégica e pretensiosa manobra decidiu visitá-los no Iraque. ''Estava procurando um prato quente em algum lugar, obrigado por me convidar a jantar'', disse Bush aos integrantes das tropas, ainda surpresos com a presença dele bem no centro de um furacão ideológico que deixa em seu rastro mortos e feridos não tanto de origem física, mas sentimental.
A visita durou cerca de duas horas e incluiu um jantar com os principais responsáveis civis e militares americanos no Iraque. Os cerca de 600 soldados, a quem Bush se dirigiu quando agradeceu pela comida quente, comeram mas não se sabe se tão quente quanto o prato do presidente. ''Trago uma mensagem dos Estados Unidos: obrigado por seu trabalho. O país está com vocês'', discursou Bush.
Com certeza. Lá longe, de onde o presidente saiu, mulheres, pais e filhos daqueles soldados protestavam contra o governo norte-americano, em atos que os meios de comunicação daquele país raramente mostram. Jornais, revistas, emissoras de televisão e de rádio sofrem o controle do Estado, numa prática que no Brasil era muito comum quando o regime militar permitiu o escandaloso controle da cultura, da política e da economia brasileira pelo país de Bush, a ponto de acordos com o Fundo Monetário Internacional, o FMI, serem assinados na surdina. Foi o que ocorreu em pleno Brasil Gigante, do tempo da ditadura e dos atos institucionais.
O Iraque é uma incógnita, portanto. Pela voz americana, tudo vai bem, obrigado. Pelas notícias de mortes de soldados dos Estados Unidos, inclusive em acidentes inexplicáveis de helicópteros, algo vai muito mal. Também a chegada dos corpos dos abatidos, seja em acidentes ou vítimas de um atentado, sofrem censura. Cinegrafistas e fotógrafos têm o trabalho restringido. Repórteres com muitas dificuldades conseguem chegar às famílias dos mortos, cujos corpos são entregues.
A paz, uma promessa, por enquanto se viu em cenas arranjadas mostradas por algumas redes de televisão: crianças iraquianas brincam com soldados norte-americanos. O que haveria de comum nessas cenas? Ambos os lados brincam, um devido à inocência da própria infância, outro porque brincar no campo de batalha faz parte do jogo.





