OPINIÃO DA FOLHA
Rodovias sem buracos
O ''Buraco Zero'', programa anunciado na noite de quinta-feira pelo ministro dos Transportes, Anderson Adauto, é uma emergência nas principais rotas de escoamento da produção agrícola e também nas demais rodoviais, pois se elas existem foram traçadas para cumprir alguma finalidade. Porém, pelo anúncio do ministro, a prioridade no momento é apenas para as estradas utilizadas para o transporte de grãos da safra de verão, cuja colheita deve ser iniciada em fevereiro. Portanto, sobrariam apenas três meses para um trabalho de restauração, o que significa somente uma ação emergencial cujos resultados podem ter pouca duração. Corre-se o risco das estradas restauradas se mostrarem esburacadas antes do fim da colheita.
Embora anunciado com pompa, durante um jantar promovido pela Associação Brasileira dos Exportadores de Cereais, o programa não passa de uma obrigação do Estado. Há anos algumas das principais rodovias que cortam o País estão deterioradas. E se elas não servem para o escoamento de grãos, provavelmente passarão por estas estradas outras produções, que mesmo em montante muito menor que as do campo devem ter a sua importância para a economia de algum lugar em por consequência, também do País.
Na hipótese de uma rodovia não ligar um centro produtor a uma região de consumo, no mínimo ela estará ligando um lugar a outro. Não foi por acaso excluindo exemplos de influências políticas comuns, de estradas rurais asfaltadas visando interesses restritos que ela foi traçada naquele trecho do mundo. Pessoas a passeio ou a negócios se movem de uma localidade a outra e isto é garantido pela Constituição. E se a estrada pavimentada é a única forma de ligação, então a que ali foi traçado tem tanta utilidade para aquela comunidade quanto as rodovias que servem para despachar a produção agrícola.
Dar uma cara nova para o pavimento esfarelado das rodovias federais, portanto, nem exigiria um programa. Por ser obrigação, exige, sim, uma ação urgente, inclusive sem anúncios, porque avisar que vai fazer aquilo que deveria há muito tempo já estar pronto é um tanto vergonhoso.
São, aliás, situações como estas que fortalecem, inclusive em parte da população, a tese de que a entrega das rodovias federais para empresas privadas, com a cobrança de pedágio, é uma necessidade. E isto nunca foi verdade.





