OPINIÃO DA FOLHA
Regras desiguais
A potência quer vender a Alca como um bom negócio, mas não se comporta como um negociante exemplar diante dos países que lhe interessam diretamente. O livre comércio, portanto, é algo muito teórico inclusive na versão de quem o apresenta como excelente instrumento para o estreitamento das relações comerciais exteriores. Os Estados Unidos, dita potência, entendem-se como os donos da bola e do jogo de camisas. E ainda reivindicam jogar em casa as principais partidas, com direito de escolher os árbitros.
Isso ocorre na agricultura, em que o Brasil tenta ainda diplomaticamente derrubar a história do pequeno David diante do gigante Golias. A queda-de-braço, felizmente, aponta, no mínimo, para um empate graças a uma certa ousadia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se dá ao direito de conversar com o oponente no mesmo tom de voz. Em governos anteriores, seria capaz de haver um discurso denunciadoramente moderado, por culpa de uma tendência de submissão e acolhimento das propostas dos grandes.
Os subsídios americanos para a produção agropecuária formam calos desconfortáveis para os demais países produtores. É um jogo de vantagens descomunais para um e perda de pontos para os outros, antes mesmo da bola ser rolada. Especialmente agora, a agricultura brasileira preocupa os Estados Unidos, principalmente face ao bom desempenho dos produtores de soja nos campos nacionais e, consequentemente, do mercado que o produto brasileiro vê aberto, inclusive na Europa.
Agora é a vez do aço. Não só o Brasil, mas União Européia, China, Japão, Nova Zelândia, Noruega, Coréia do Sul e Suíça deparam-se com mais uma armada norte-americana, em vigor desde março de 2002: as sobretaxas às importações para proteger sua indústria siderúrgica. Para a Organização Mundial do Comércio (OMC), não há dúvida: essas sobretaxas são incompatíveis às regras da organização.
Embora em vigor há um ano e meio, só agora os países prejudicados levantam a voz, endossados pela OMC. Já era hora. É mais um calo, de tamanho desproporcional e capaz de tirar o fôlego, de tanta dor, dos demais países produtores, inclusive o Brasil.
Então a sobretaxação do aço se junta a outros instrumentos protecionistas, como o próprio subsídio à agricultura e também à Lei do Bioterrorismo, que dificulta as operações de dezenas de exportadores de pequeno porte, principalmente, comercializar seus produtos com os Estados Unidos.
Porteiras que se fecham, para garantir, provavelmente, um livre comércio contraditoriamente fechado, de regras desiguais.





