Exemplos sem rotulagem
Grandes astros preferem as vitrinas e poucos deles descem dos palcos para compartilhar com a sociedade o debate de temas que causam incômodo. Já discursar, simplesmente, é inodoro. Na história política do Brasil contemporâneo, discursos inflamaram platéias e a dor de uma maioria rendeu sucesso e renda para uma minoria. Tristezas e agruras foram cantadas e recitadas em grandes espetáculos, de custo elevado e retorno financeiro garantido. E aplausos, muitos, para os poetas da verdade.
O que é ser cult, trata um livro recentemente publicado. A princípio, apenas um termo importado que a intelectualidade nacional absorve ao mesmo tempo em que incha os peitos para criticar a submissão de um povo aos valores culturais estrangeiros. Pois não só na cultura isso acontece. No mundo da globalização, alguns especialistas em economia e marketing usam e abusam também de termos importados, que fazem o brasileiro entender pela metade o que se diz entre o pessoal cult. Correto? Errado, pois cult parece ter aplicação muito limitada e a maioria das pessoas não o é. Mas pode haver um economista assim, caso leve ao pé da letra os conselhos dos autores do livro.
Eis, no entanto, o extremo. Jovens, nos tempos modernos, costumam ser rotulados de pouco produtivos. Eles, que pintaram as caras na derrubada de um presidente da República, num movimento nacional que mexeu com toda a população, deram também a sua cota de participação no episódio de impedimento de um chefe da nação. Anos antes, lutaram contra o regime militar, alguns se expondo mais, outros caindo de pára-quedas sobre assembléias gigantescas realizadas nos campus universitários. Há quem diga que atenderam certos interesses políticos, mas dentre os milhares de agitadores, como eram denominados na época pelo sistema, houve aqueles que até sacrificaram suas vidas por causas que não eram exclusivas deles, mas de todo o brasileiro. Isso é ser cult?
Como também os jovens integrantes do Movimento Hip Hop Organizado, cujo trabalho mereceu reportagem da página Folha Cidadania, no caderno Folha 2 desta terça-feira. O que fazem não é nada modesto, se analisado do ponto de vista da contribuição que prestam à coletividade. Portanto, são incansáveis batalhadores, desses que jamais deixarão de se iluminar mais do que os focos dos holofotes permitam, uma vez que sempre terão os pés fincados nas comunidades de onde vieram. Bons exemplos, independente das classificações que recebam num mundo de rotulagem.

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