OPINIÃO DA FOLHA
Estranha humanização
Humanização deveria ser palavra de ordem no contexto do atendimento médico e hospitalar, seja na rede pública ou privada. Não haveria necessidade de um evento debatendo esta prática, principalmente quando o enfoque é a implantação de tal conduta, como se esta dependesse de um sistema operacional. Até seria admissível discutir aperfeiçoamento, mas ainda assim, por ser um ato que está diretamente relacionado à postura de quem atende, seja esta pessoa um médico, uma enfermeira, um escriturário ou um porteiro, é difícil imaginar alguém se reciclando para se tornar mais humano.
Recentes pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a distância entre ricos e pobres torna-se cada vez maior. No espaço entre uma ponta e outra, existem populações das mais diferentes classes sociais. De qualquer forma, a possibilidade de um cidadão dos patamares inferiores trabalhar num estabelecimento hospitalar é muito pequena. A dificuldade de acesso à cultura e a própria discriminação quando muito, poderão colocar uma pessoa desta faixa como jardineiro, faxineiro ou serviços gerais de um hospital. Infelizmente, esta é a realidade.
A discriminação por culpa das diferenças sociais começa no emprego. E num projeto de engenharia utópico, mas real, percebe-se que na disputa por espaço na sociedade quem pode mais sempre menospreza aqueles que estão nos degraus mais abaixo. Esta seria uma humanização a ser buscada no caráter de cada um, e não nos debates institucionais. Um pouco de fé verdadeira, que não seja aquela de ir e vir da igreja e dos templos para mostrar estampas, talvez resolveria.
Pois acontece que a instituição, com raros exemplos em contrário, costuma ser um prédio frio onde dezenas de funcionários, movidos a normas e regras, cruzam-se pelos corredores e a cada esquina perdem um pouco mais de sensibilidade. Normas e regras, às vezes, não estabelecem claramente, mas são recados para as pessoas deixarem o lado humano de lado enquanto trabalham. Que fique claro: não se fala aqui de conduta profissional, pois algumas atividades exigem frieza nos procedimentos. Num exemplo tosco, mas muito válido, diz-se que o enfermeiro que faz um curativo não deve se emocionar com o sangue que sai da ferida. Muito menos o médico que faz um implante. A referência é para as regras e as normas: não sorria, seja mecânico nos seus procedimentos.
O saldo, porém, é que parece haver um grande equívoco. Não foi por acaso que a questão das diferenças sociais foi tratada no início deste texto. A questão é o atendimento, eis que na briga entre quem pode mais e quem pode menos, os reflexos se dão em praticamente tudo o que cerca o homem. O balconista do comércio atenderá melhor aquele que aparenta ter mais condições de consumo; o atendente de banco idem; o funcionário público da mesma forma. Até chegar aos hospitais. Portanto, estes mesmos que buscam a humanização através de cursos para funcionários investem num paliativo. Sabe-se que as diferenças no atendimento são grandes entre quem paga, quem é tratado com plano de saúde e quem depende do serviço público. A humanização, assim, soa como desculpa. O que precisa ser debatido é a qualidade de atendimento.





