OPINIÃO DA FOLHA
Literatura e realidade
Traficantes transformam o quintal de uma casa em ponto de venda de drogas e confinam a família moradora, para que seus membros não atrapalhem os negócios. É no mínimo absurdo o que a criminalidade e a consequente impunidade faz com as pessoas. Ao que parece, a casa está em local que, na avaliação dos contraventores, atende plenamente aos interesses do tráfico. Provavelmente era ponto de negócios tanto para usuários quanto para pequenos traficantes. E a família, refém de uma situação absurda, era obrigada a conviver, até o final de semana, com criminosos no quintal, todas as noites.
Na época da ditadura, os versos de um grande poeta universal costumavam ser abusivamente usados por alguns para descrever esta relação entre a invasão e a submissão das pessoas em relação aos atos praticados contra os que, na ótica do Estado, tinham características de subversivos. E para ser subversivo, de acordo com tal ótica, bastava não concordar com as idéias do Estado. Os versos, consequentemente, falavam da necessidade de reação, para evitar mais abusos, mais interferência, mais coação.
Também no passado, um grande escritor, também universal, espantou o mundo e conquistou leitores ao escrever uma obra futurista em que a relação da comunidade com um grande chefe, quase um Deus, eram praticamente íntimas. Metaforicamente, a mensagem era sobre a presença forte do Estado na vida das pessoas e na obra, essa interferência ocorria quase como nos programas de tevê que tentam resultados com a exposição do real, os big brother.
São duas fantasias que se fundiram e hoje fazem vítimas, como a família londrinense que conviveu com traficantes no quintal até a polícia, de uma maneira ou outra, chegar ao local com flagrante e prisões. Mas observe o leitor que o Estado está só presente no controle do pagamento dos impostos e, no caso dos trabalhadores registrados em carteira, no recolhimento do imposto retido na fonte e do INSS.
Quantos membros daquela família contribuem com o Fisco, direta ou indiretamente? Praticamente todos, desde o momento em que deram o primeiro choro, numa maternidade de hospital. E agora, o que estes contribuintes farão, já que se sabe que a quadrilha deixa raízes no bairro e pode, a qualquer momento, vingar a derrota para a polícia agindo contra os moradores da casa?
É exatamente isso o que ocorre em Londrina, já com certa frequência. Outra família londrinense, também recentemente, acuada por marginais anunciou intenção de abandonar a cidade, com seus mais de 20 membros. Em localidade mais carentes, as histórias de bandidos que desabrigaram famílias para tomar a moradia também estão registradas nos boletins policiais. A lição que o poeta tentou transmitir não é fácil de ser praticada. O alerta que o escritor escreveu só acontece de um lado. Quando o cidadão precisa do Estado, é o bandido que chega primeiro.





