Números frios mas verdadeiros

Números que compõem as estatísticas que se apresentam costumam ser frios, desde que a realidade esteja distante das pessoas que têm acesso a eles. Ontem, há exatos 60 dias do Natal, o leitor deste jornal deparou no Primeiro Caderno com duas reportagens que informam sobre pesquisas que estão próximas do cotidiano de praticamente todo cidadão, não só de Londrina, mas de todo o País.
Um deles é o do mais recente levantamento do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), sobre o índice de população infantil em situação de absoluta miséria. No Brasil, de acordo com o organismo internacional, são seis milhões de crianças nesta condição, o que representa 10% da população infantil brasileira. A pesquisa do Unicef considera em absoluta miséria aquelas que não têm praticamente nada. Seriam crianças que convivem diariamente com a falta de condições humanas básicas que permitam um desenvolvimento normal e saudável, como comida, água limpa, saneamento básico, saúde, habitação, educação e informação.
É uma realidade possível de ser retratada em qualquer localidade, como mostra reportagem publicada por este jornal. E nem é preciso uma visita às comunidades carentes, pois parte deste público, em Londrina ou em qualquer outro município, costuma ser vista nas ruas, pois tem a esmola como única alternativa para tapear a fome.
O caso da mulher com o marido doente e desempregado, responsável pela manutenção de uma família de oito filhos, estando ela também impossibilitada de arranjar um emprego, não é único. Fátima, Maria, Lourdes, Ana e muitos outros são nomes de mulheres que se escondem em rústicos barracos de lona ou madeira, nas áreas invadidas ou nos assentamentos urbanos recentemente regularizados, enquanto tentam a atenção de alguma entidade assistencial para alimentar filhos que nem à escola pública costumam ir. Na maioria das vezes, não por relaxo dos pais, mas por plena falta de condições inclusive de pensar o melhor para os pequenos.
Outra pesquisa, também publicada ontem, é da Confederação Nacional dos Transportes (CNT). Seus resultados dizem aquilo que os motoristas e passageiros estão acostumados a enfrentar nas estradas federais que cortam o País: 60% delas apresentam imperfeições e riscos para os viajantes, devido aos buracos e ondulações provocados por pavimentação que não resiste ao peso dos veículos.
Também neste caso, há uma omissão flagrante do Estado, cujos representantes de escalões superiores recorrem ao transporte aéreo. Assim, é preciso acabar com as diferenças entre o Brasil de cima e o Brasil de baixo. Em solo, a miséria leva milhares ao desespero e aqueles em condições de trabalhar viajam por rodovias que, devido à precária conservação, causam atrasos e prejuízos.

mockup