Equívoco ou depuração?

A fase de desgastes do governo federal torna-se mais evidente neste final de 2003, face aos conflitos internos que extrapolam as paredes do palácio presidencial e ganham o público. Agora, é a vez da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, empunhar os microfones para manifestar descontentamento com as posições do próprio governo da qual ela faz parte e inclusive contra o seu partido, na questão dos transgênicos. Ainda nesta semana, Marina Silva aproveitou um jantar, organizado por alguns partidários na residência de um deputado petista, para mandar um recado curto e grosso ao primeiro escalão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e também à bancada federal do Partido dos Trabalhadores: ela não será ''ministra da jardinagem''.
Ainda em tom duro, a ministra do Meio Ambiente complementa o seu cargo com firmeza ao manifestar que não pretende deixar o cargo e vai mexer em questões fundamentais relacionadas à sua pasta. Ou seja, Marina Silva avisa que não ficará ''só na superfície''. O que a ministra defende são posições severas em relação às restrições de plantio e comercialização de soja transgênica por parte dos colegas parlamentares, no momento em que estes analisarem a medida provisória do governo federal em relação ao tema. Aliás, a própria liberação dos transgênicos contida na medida provisória é uma afronta às posições da ministra, pois o seu parecer é contrário e, a princípio, nem previa acertos para permitir o plantio e a comercialização.
Temeroso, portanto, imaginar que ainda restam pouco mais de três anos de gestão. Ou estaria o governo depurando a sua estrutura interna? Não é segredo que o PT que venceu as eleições e colocou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não é o mesmo de outros tempos, inclusive não tão distantes. E, por outro lado, não se pode afirmar que o PT que ocupa o palácio seja uma extensão avançada daquele partido que surgiu do sindicalismo e, portanto, sempre se fez presente nas bases. Caso de Marina Silva, que não surgiu dos palanques partidários, mas do seio de um Partido dos Trabalhadores autêntico.
Verdade que a reciclagem ideológica é uma necessidade, na medida em que a humanidade caminha para o futuro. Mas há questões conceituais, quando o assunto é o partido político, que nem o homem na lua muda, pois dizem respeito diretamente ao modo de pensar e agir dos políticos envolvidos. Sem que se diga se a liberação dos transgênicos é boa ou ruim para o Brasil, é preciso considerar se o tema foi amplamente discutido pelo próprio governo antes do encaminhamento da medida provisória ao Congresso Nacional, ou se saiu dali por ação de lobby.
Lobby, aliás, que coloca o presidente Lula da Silva no meio de outro redemoinho: o dos deputados, que responderam a uma provocação do governo quando estava em questão a utilização de parte dos recursos destinados à saúde com gastos de saneamento e com programas de combate à pobreza. Lula da Silva disse que a proposta sofreria pressão do lobby de donos de hospitais. Mas, pelo contrário, a animosidade foi aberta com os deputados da Frente Parlamentar da Saúde, que vestiram toucas cirúrgicas e aventais para protestar contra a proposta e a posição do presidente.

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