O pão da solidariedade

Iniciativas elogiáveis aconteceram em várias partes do mundo para marcar o Dia Mundial da Alimentação, algumas delas extrapolando expectativas mesmo que sendo pontuais. Como em São Paulo, onde cerca de cinco mil crianças carentes tiveram a oportunidade de experimentar uma refeição diferente daquela que estão acostumadas em seu cotidiano, em que a fartura é apenas uma palavra distante. Ou o exemplo dos padeiros de Curitiba que, se por um lado, pensaram no livro dos recordes, por outro, disponibilizaram o produto de suas disputas também para as comunidades carentes. Enquanto no Rio, um alardeado evento alimentou apenas 50 crianças.
Datas são importantes para isso: mostrar que em algum lugar alguém de boa vontade faz algo. Dentre os milhares de ''alguéns'', provavelmente uns gostariam de exercitar este tipo de cidadania com mais frequência. Admite-se, porém, que nem todos dispõem de tempo e recursos financeiros para alimentar tanta gente, que seja uma vez por mês. E nem seria papel do cidadão tal exercício, pois existe um Estado e dentro dele um governo, o mesmo que se mantém com o dinheiro dos contribuintes e em troca, ao contrário de apenas manter gordas máquinas administrativas, deve bancar programas que possibilitem à população a aquisição de sua comida.
Então, o Dia Mundial da Alimentação é um alerta. Dados exaustivamente divulgados ontem e hoje mostram que a cada 7 segundos, uma criança no mundo morre de fome. É uma informação preocupante, diante de tanto disperdício nas mais diferentes fases da produção, industrialização e comercialização dos alimentos. Pior ainda, diante da constatação, no caso do Brasil, sobre o distanciamento cada vez mais expressivo entre ricos e pobres.
Datas comemorativas são para louvar, abençoar, agradecer, relembrar. Não é o caso do Dia Mundial da Alimentação. Incontável número de entidades não-governamentais deram o seu grito ontem: a alimentação, em situação de crise, sofre efeitos diretos. É o desemprego que tira a comida da mesa, tanto quanto o achatamento da renda do trabalhador, que faz a dieta se tornar fraca e insuficiente.
Iniciativas isoladas são exemplares porque mostram a quem deve agir que alguns poucos, mesmo tendo como objetivo um recorde, não ignoram a existência de milhares de famintos.

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