OPINIÃO DA FOLHA
Ferida aberta
Apesar do saldo trágico de quase 60 mortos durante conflitos entre manifestantes e polícia, num embate que já dura mais de três semanas, os protestos na Bolívia escancaram algo de muito positivo: a noção de pátria que cada cidadão carrega no peito.
O presidente Gonzalo Sánches de Lozada não é marinheiro de primeira viagem. Misto de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, na proposta de abrir as fronteiras comerciais do país o que pode ser altamente positivo , Sánches de Lozada falhou em gestão anterior e deixou descontentamentos, embora levado novamente ao poder em processo democrático.
Correta, portanto, a sua política de buscar o enriquecimento do país com a venda dos produtos naturais que abundam na Bolívia, inclusive o gás natural, razão de todo o desconforto do governo hoje. A questão é como esta comercialização é feita e a que preço, não para o comprador, mas para o povo.
Existe uma condição que no Brasil e em alguns outros países passaria despercebida. No entanto, para o povo boliviano, mexe com a honra e o orgulho. E nesse item nem é mesmo considerado o preço ou quem é o comprador. O porto por onde o gás seria exportado está no Chile. É o mesmo porto que já pertenceu à Bolívia e cujo país teve tomado durante disputa do passado.
É algo parecido com uma Malvinas, que sacoleja o povo argentino e ficará para a história como uma marca profunda no peito de cada cidadão. Jamais cicatrizará. Ao contrário, tende a se abrir em alguns momentos, quando a questão da soberania estiver em debate por algum problema qualquer.
''Que difícil é amar a Bolívia!'' Frase do ex-presidente Jaime Paz Zamora, ao declarar apoio a Sánches de Lozada. Não é bem assim. No outro lado, onde está o povo, é uma espécie de amor muito forte que mobiliza milhares e os leva ao confronto. Fica evidente que é muito mais fácil a população boliviana amar o seus país do que o brasileiro, castigado durante décadas por sucessivas crises, levantar o estandarte nacional da maneira que ele deve ser erguido.
Aqui, a pátria é confundida com governo. Assim, se o governo não é bom, é a pátria que fica devendo ao seu povo, numa equivocada interpretação que os anos de ditadura militar trataram de gerar e disseminar, com as obrigações de um nacionalismo anti-socialista exacerbado praticado inclusive no ensino fundamental, através da disciplina de moral e cívica. Com isso, o falido regime passou um trator sobre o sentimento patriótico brasileiro.
Diferente de Argentina, Chile e da própria Bolívia, um país de muitos pobres, mas de grau de consciência pouco mais elevada. É pertinente que se detalhe, a análise não é cultural, é política. Pois até culturalmente a Bolívia é menor em comparação ao Brasil, embora tenha que ser admitido que as tradições de um povo, mantidas como são feitas por lá, sejam consequências diretas de uma formação cultural não acadêmica, mas de base.
Sánches de Lozada, enfim, tocou a ferida aberta de seu povo com ferro em brasa.





