OPINIÃO DA FOLHA
Tanto lá quanto aqui
Embora a riqueza de um povo pareça estar associada ao seu grau de cultura, devido ao desenvolvimento que a boa condição econômica permite à população e ao país que ela habita, percebe-se claramente que tal relação nunca existiu na história da humanidade e, muito menos, predomina na atualidade. A eleição do ator norte-americano Arnold Schwarzenegger para governar o Estado da Califórnia estampa bem esta situação.
Atores, tanto quanto outras categorias de trabalhadores, costumam ser conscientes não somente quanto à profissão, mas também sobre as coisas da política e da sociedade a que estão vinculados. Mas há, dentre tantos, os que chegam à fama de outras maneiras. No cinema, Schwarzenegger contenta milhares de pessoas no mundo, com seu papel de durão. Sempre herói, seus personagens falam pouco. Às vezes balbuciam e, quando muito, o vozeirão grave ecoa pelas salas de exibição, como um estrondo, ao pronunciar frases feitas. Por algumas poucas vezes tentaram fazer dele um galã, desses que apaixonam e são apaixonados. Numa dessas versões, tentam fazer dele um quase humorista com o perdão dos bons humoristas que atraem fãs nos quatro cantos do planeta , numa mistura que inclui melodrama para trasnformar o homem de músculos num ser com sentimentos.
E assim também fizeram do astro um governador de um Estado importante. Podia ocorrer de existir, dentro da estrutura física e da frivolidade do herói, um cidadão norte-americano consciente. A campanha de Schwarzenegger não mostrou isso. O ator, no personagem de político, falou mais do que na tela. Mas foram verborragias apenas, faltaram conteúdos. Tanto que, nas últimas semanas da campanha eleitoral, o homem Schwarzenegger foi coberto por uma enxurrada de acusações. Coisas da política. Apesar das poucas qualidades como homem público, havia de ter uma estratégia para tentar minar a eleição do herói das telas, que por esta condição conquistou o eleitorado. A estratégia falhou e o astro foi eleito. Talvez ele consiga, a partir de agora, mostrar que também é um político, embora quem votou contra já esteja certo que isto não vá ocorrer.
Então é tanto lá quanto aqui. Com a diferença que por estas bandas há milhares de eleitores que mal aprenderam a assinar seus nomes. Assim sendo, são privados da cultura e, na maioria dos casos, também da possibilidade de uma boa escolha. O Brasil já elegeu galãs conscientes e inconscientes. Agora tem um presidente da República que nasceu da base do movimento sindicalista e, se não consegue dar um ritmo mais ágil para o processo de mudança que prometeu em palanque, pelo menos é respeitado como um estadista no exterior. Assim se percebe que, apesar das dificuldades econômicas do nosso eleitor ser quase que infinitamente maior que o da maioria do eleitorado norte-americano, a cultura do vamos ver no que dá, por lá, é tão presente quanto aqui.





