OPINIÃO DA FOLHA
Unanimidade suspeita
Não poderia ser diferente. ''Uma das coisas mais difíceis em política é a unanimidade''. Este foi o desabafo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na quarta-feira, após encerrada mais uma das reuniões com os governadores para a busca de um acordo em torno dos pontos mais polêmicos da reforma tributária.
Na democracia, às vezes a unanimidade é algo suspeito, pois pode ter sofrido efeitos inapropriados, resultado dos acordos de bastidores firmados para a aprovação desta ou daquela proposta. Isto na esfera parlamentar e no âmbito das mais variadas organizações, inclusive populares.
Imagine o leitor uma reunião de cunho deliberativo de uma associação de moradores, com a participação de centenas de pessoas. Normalmente, alguns poucos se pronunciam, a maioria prefere adotar uma postura de omissão. Mas na votação, todos levantam as suas mãos, seja em busca da unanimidade, seja num referendo para fazer prevalecer a proposta mais votada.
Este tipo de comportamento é reflexo de uma cultura, com efeitos inclusive dos longos anos de silêncio a que a população brasileira foi vítima. Devolver ao cidadão a disposição de se fazer presente na busca de soluções para os problemas que o cercam depende de um exercício contínuo e esgotante de democracia. E nem sempre as questões emergenciais estão nas pautas das discussões. É o caso da polêmica sobre a venda de bebida alcoólica no campus da Universidade Estadual de Londrina, encerrada recentemente após um acordo entre o Diretório Central dos Estudantes e a reitoria da instituição de ensino superior.
Quase que simultaneamente a esta polêmica, uma pane no sistema de automatização do restaurante universitário que funciona no campus impediu o fornecimento de refeições por alguns dias. Sabe-se que hoje a situação começa a ser normalizada. Mas não é este o foco da discussão deste espaço. A questão é que o fechamento do restaurante por força de uma pane não resultou em mobilização dos estudantes, na busca de alternativas baratas e acessíveis de refeições. É de se crer que a comida do restaurante universitário, a um custo muito especial, é necessidade de um maior número de pessoas da comunidade universitária, se comparada à cerveja.
Já no caso dos governadores, o governo federal deve entender que interesses diferentes estão em jogo. E nenhum chefe de executivo estadual deixará de defender o seu, que pode ser o contrário do Estado vizinho. Afinal de contas, ele foi eleito por sua população para lutar por ela. Sob este enfoque, engana-se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao considerar a unanimidade uma solução. Ela jamais prevalecerá numa situação desta, onde a negociação, feita com rigor e com resultados contemplativos para todos, independentemente das diferenças, será sempre a principal vitória.





