OPINIÃO DA FOLHA
Perpetuação das desigualdades
O Brasil do século 20 teve a sua população multiplicada por dez e a sua riqueza por cem. Ao que se imagina, teria sobrado um pouco mais para cada um dos seus habitantes. Mas no Brasil das desigualdades sociais, a análise linear é proibida, cabendo um enfoque que inclua numerosas variantes. É o que mostra o mais recente estudo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), denominado Estatísticas do Século XX. Portanto, neste início do século 21, persiste um desafio de décadas, cuja raiz nenhum governo tentou, exaustivamente, aniquilar até o presente: tentar diminuir a distância que separa ricos de pobres.
O próprio IBGE estampa números importantes, como o do aumento da concentração de renda em parte do período constante no estudo. Em 1960, a renda total dos 10% mais ricos era 34 vezes maior que a dos 10% mais pobres. Passados trinta anos, a diferença saltou dos 34 para 60 vezes, praticamente registrando uma duplicação. Outro índice, o de Gini, que mede a desigualdade, piorou no mesmo período, passando de 0,50 para 0,63. Cabe enfatizar que, pelo Gini, quanto mais perto o índice estiver de 1, maior é a distância entre pobres e ricos.
Quanto ao enriquecimento do País, percebe-se também que sob o enfoque linear houve avanço expressivo, tomando-se como base o Produto Interno Bruto (PIB) per capita do brasileiro. O crescimento foi de quase doze vezes entre 1901 e 2000, com uma média de 2,5% ao ano. Em valores, o salto foi de R$ 516 para R$ 6.060. O comparativo com outras economias no mundo aponta o desempenho brasileiro como exemplar. Entretanto, ao sair da frivolidade dos números, a conclusão é de que ocorreu um crescimento sem qualidade, segundo análise do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), por não ter havido um planejamento sustentado que levasse em conta a necessidade de modernização tecnológica, incluindo a distribuição de renda.
A receita para consertar esta situação não é nada simples, admite-se. Porém, nem os ensaios para desembaraçar os fios de uma complicada operação, visando a busca de uma solução, ainda foram dados. Não foi no governo passado e nem no anterior a aquele. Tampouco o foi na história do País e nem ao menos será nesta gestão, se levado em conta que o que se faz é pouco ou nada. E, de novo este espaço vê-se obrigado a tocar nos projetos assistenciais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que em nove meses de governo são fartos em quantidade mas inexpressivos em conteúdo.
Não foi à toa que, há dias, um ministro, homem de confiança da equipe de governo, aproveitou um evento para criticar as políticas assistencialistas que apenas mascaram as situações de desigualdades, quando não as reforçam, por colocar o carente numa situação de eterno mendigo. O Brasil do século 21 precisa de ações que promovam a inclusão social. E não de paliativos que perpetuam as diferenças entre quem pode mais e quem pode menos financeiramente.





