OPINIÃO DA FOLHA
Arestas irreparáveis
Frágeis, as cordas que sustentam o governo, quando esticadas, tendem a um rompimento. Recentemente, o ministro da Educação, Cristovan Buarque, foi advertido por ter criticado em público a falta de recursos para sua pasta. Semanas depois, falando a um grupo de alunos secundaristas, o mesmo Cristovam Buarque convocou os estudantes para uma passeata até o Congresso Nacional, na data da votação do Orçamento da União para 2004.
Agora, o ministro do Trabalho, Jacques Wagner, aproveita um seminário promovido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para criticar as políticas assistenciais e defender que estas são muito limitadas como instrumento de inclusão social. E justo no momento em que o governo, da qual o próprio Jacques Wagner faz parte, ter consolidado nestes primeiros oito meses de gestão um modelo flagrantemente assistencialista, com benefícios de toda ordem e créditos até para a compra de eletrodomésticos.
Para o ministro do Trabalho, inclusão social se faz com a geração de emprego, renda e salário, o que é plenamente verdade e só não é entendido por quem faz questão de evitar esta realidade. Implica, inclusive, que alguns números positivos estampados nas últimas semanas pela estatística oficial comprometem este tipo de levantamento e análise. Como o da geração de empregos, pois mais vagas, a um custo baixo, não elimina o problema da baixa renda. Ou do crescimento da taxa de natalidade das empresas, eis que muitas mal começam a engatinhar e já vão a óbito.
O saldo positivo da situação que se vislumbra, no entanto, é o do próprio constrangimento do governo de ter entre seus pares autoridades que não falam a mesma língua da equipe. Ruim para o governo, é claro, mas excelente para o cidadão. Aqueles que têm personalidade, por mais que pareçam detonadores, abrem os olhos dos demais, estes que apenas fazem o sinal positivo com a cabeça, para não contrariar quem quer que seja. E com personalidade defendem seus pontos de vistas, expostos de forma tão incostestáveis, que nem o governo da qual faz parte ousa condenar. É o caso de Jacques Wagner: ''O desafio é produzir uma política econômica na qual o viés do trabalho, do emprego e da renda seja encarado como uma política mais inteligente de inclusão social''. Bem, imagine-se que o ministro esteja falando do seu governo, o do PT.
E mesmo Cristovam Buarque, recentemente tema deste espaço, merece crédito e apoio quando reclama da falta de recursos para a educação. É possível, e cada interpretação é resultado de um julgamento, que Buarque tenha se valido de um recurso inadequado para manifestar o seu descontentamento. Mas a queixa é muito pertinente, principalmente quando se analisa a valorização (ou a falta de valorização) do professor.
Ainda bem que, no Planalto, uns falam português, outros se comunicam de outro jeito. Assim, pelo menos, não fica a impressão que elas, as autoridades, estão plenamente corretas no que fazem, e a população é que está equivocada sobre tudo e todos.





