OPINIÃO DA FOLHA
O país do crédito fácil
A medida provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, legalizando a concessão de crédito direto aos trabalhadores, com desconto na folha de pagamanto, pode resultar em uma catástrofe para o orçamento de milhares de empregados. A decisão veio logo em seguida ao microcrédito do governo federal e simultaneamente ao crédito para a compra de eletrodomésticos, como forma de estimular o consumo de geladeiras, fogões, máquinas de lavar e televisores, cuja meta é elevar em 300 mil unidades as vendas desses produtos até o final do ano.
Política equivocada é esta. Também recentemente, o governo autorizou a redução do Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI) para os veículos, na tentativa de frear a onda de demissões na indústria automobilística. A intenção foi boa: reduzindo o IPI, o preço do carro nacional ficaria mais em conta e, consequentemente, as vendas aumentariam. Mas o resultado prático é questionável: o consumidor não sentiu os efeitos da redução do imposto no preço do carro. Pelo contrário, algumas marcas até alteraram suas tabelas para cima.
O veículo, no entanto, é um produto de consumo para um público mais privilegiado. Geladeiras, fogões, máquinas de lavar e televisores, no entanto, são objetos de desejo de um número maior de pessoas. Com crédito facilitado, muitas delas vão recorrer aos bancos. E dentre estas muitas, um elevado porcentual cairá nas malhas do endividamento.
De acordo com a Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos, as vendas do setor devem cair 4% este ano, após amargar dois períodos anteriores também de quedas: 2% em 2002 e 6% em 2000. A comercialização das 300 mil unidades previstas pelo governo federal em 2003, segundo a entidade que congrega os fabricantes, não reverterá a projeção negativa.
Então, como se vê, a solução não é a concessão de crédito facilitado para o cidadão sair comprando geladeira, televisão, máquina de lavar e fogão. O momento econômico é de muitos apertos. Ninguém troca eletrodoméstico por ter necessidade de consumo, embora, no passado, a vontade de inovar as peças da casa ainda fizesse parte dos planos anuais das famílias de classe média.
Agora, os projetos são outros. Compra-se apenas o necessário e quanto mais elevado é o valor do produto, mais se adia o fechamento do negócio. Assim, tirando os mais afoitos, que se curvam com mais facilidade aos apelos de juros e condições de pagamento atraentes, outros, já com os cintos apertados, não poderão contribuir com o governo e, por extensão, deverão manter a estimativa das indústrias de eletrodomésticos negativa.
Uma política econômica seria a receita adequada. Medidas provisórias e pacotes estimulatórios para determinados setores são remendos. O trabalhador, mesmo com juros baixos, não está em condições de contrair dívidas.





