Mudança de postura
O desperdício no Brasil precisa ser tratado como um problema sério, aliás, tão importante a ponto de ser transformado em uma alternativa de solução para a questão da fome. Não é de hoje que segmentos isolados da sociedade já pensam e agem com este objetivo e colhem relativos resultados, uma vez que, sozinhos, pouco podem fazer para reverter um quadro crítico geral, que é este do descarte de produtos aproveitáveis e de menosprezo ao que se perde durante o processo de produção e comércio.
A agricultura, por exemplo, através da pesquisa e da extensão rural desempenha um papel importante, inclusive premiando produtores que reduzem o índice de desperdício na colheita. Mas depois vem o transporte, onde a perda da carga em grãos é evidente nas estradas. Isso até o cidadão urbano sabe, quando viaja pelas estradas nos períodos de colheita e conduz seu veículo a poucos metros de distância de um caminhão que transporta grãos. E são, além da colheita e do transporte, muitas outras etapas até o produto chegar ao seu destino.
Algumas organizações não-governamentais também dão o seu grito de alerta contra o desperdício. A Pastoral da Criança, com a sua multimistura que aproveita casca de banana e ovos, sementes de alguns produtos e talos de outros, já tirou da condição de subnutridos um bom número de crianças brasileiras. E até escolares fazem a sua parte, como se viu na edição de ontem deste jornal, em seu caderno Folha Cidade. Alunos trabalham com reciclagem e com a renda obtida com as peças que confeccionam compram ingredientes para cestas básicas, que são distribuídas para famílias carentes.
São iniciativas que emocionam, pois não parte do Estado, aquele que faz alguma coisa porque sua função é esta mesma, de fazer alguma coisa. E, quando o faz, comete o risco de descuidar na administração de programas nobres, que futuramente passam por auditorias e revelam desvios revoltantes.
Imagens mostradas ontem na capa da edição de ontem e também na página 4 do caderno Folha Economia revelam uma situação comum. Folhas inteiras de verduras esparramadas pelo chão. Bem, há pratos alternativos que são boas comidas, em sabor e em nutrientes. Usa-se a folha da beterraba para alguma coisa, como também os talos para outras misturas. Não é somente a beterraba que é saborosa. Aproveita-se, enfim, praticamente tudo o que a natureza oferece ao homem. Mas este, de acordo com a sua condição financeira, joga e evita que outras pessoas mais necessitadas aproveitem as sobras.
Muitas vezes, jogar é mais lucrativo do que vender mais barato. Quantas vezes produtores derramaram leite, queimaram café ou deram cenouras aos porcos durante manifestações de protesto. A melhor forma de expressar revolta contra uma situação política ou econômica não seria a venda direta, numa espécie de feirão, eliminando inclusive o ganho do intermediário, este que é motivo de muitas queixas por parte do setor produtivo?
Há, portanto, como acabar com a fome sem ninguém ser obrigado a fazer mais do que faz. Só falta estimular consciência e bom-senso. Isso não depende do Estado, cabe a cada cidadão uma mudança de postura.

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