A roda quadrada
Superar a dicotomia entre o social e o econômico para construir um futuro melhor. Eis uma proposta difícil de ser interpretada. Feita num momento de relativa tensão pelo ministro Extraordinário da Segurança Alimentar e Combate à Fome, José Graziano da Silva, quando criticava os programas sociais do governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso, a frase, numa tradução tosca, mas prática, quer dizer o seguinte, desde que aplicada ao assunto que era tratado no momento em que ela foi dita: é preciso deixar de tratar o social e o econômico como dois sistemas diferentes; os dois devem ser fundidos, visando objetivos únicos.
Como fazer isso é que é o problema. Na verdade, a conversa do ministro surgiu durante a Conferência Nacional de Desenvolvimento Econômico e Justiça Social: perspectivas e desafios. Mais especificamente, quando ele foi questionado sobre a não-continuidade a programas sociais do governo anterior. Foi quando o ministro se queixou que ''se esquecem que a roda que nos deixaram é quadrada''.
Tem plena razão. O que o atual governo herdou nessa área é um pacote de programas flagrantemente assistencialistas. Cestas básicas, vales para gás e tantos outros benefícios, distribuídos sem muitos critérios e sujeitos a manipulações políticas, fazem parte da história deste País. É uma forma de perpetuar as desigualdades sociais posando de bonzinho, pois, recorrendo a um batido dito popular, dá-se o peixe, mas não se ensina a pescar.
O efeito mais nocivo desta prática é o clientelismo de baixo custo. Uma cesta básica pode render um voto. A inclusão da família no cadastro do gás é capaz de eleger alguém, pois quatro votos de uma casa, três de outra e cinco de tantas mais resultam numa somatória animadora. Mas isso é passado, imagina-se.
E hoje, o que se faz? O ministro quer deixar claro que agora não se faz mais como no passado recente. Inclusive em relação ao Fome Zero, que tem um pouco do fim da dicotomia e tenta unir o social e o econômico para estruturar comunidades carentes a serem produtivas pelo menos em termos de sobrevivência. E nisso o ministro tem razão.
Mas tantos outros programas já lançados pelo atual governo parecem tão filantrópicos quanto os do passado. E o próprio Fome Zero, se não for levado à prática integralmente, deixa dúvidas. Em Londrina, junto à entrega de cartões valendo R$ 50, uma solenidade marcou ontem a formatura de pessoas de comunidades carentes em cursos de formação profissional, incluindo uma senhora que pretende ganhar a vida na área da construção civil. Fruto de uma iniciativa local, o Fome Zero apenas aconteceu junto.

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