OPINIÃO DA FOLHA
Geração sem projetos
Uma geração caminha para o futuro sem saber onde se encontra a ponta da estrada que leva até lá. É o resultado de um país sem projetos para os jovens e adolescentes. Exagero? Então se pergunte o leitor qual é o tom das perspectivas para as gerações que já deveriam estar com a vida estabilizada? Sombrio. O Brasil dos últimos anos não permite projetos, desde os mais básicos.
Para uma família com pai e mãe na faixa dos 40 anos, o ideal seria que, por resultado de anos que ambos já dedicaram à uma atividade remunerada, esta gozasse de relativa tranquilidade financeira e dispusesse de bens capazes de permitir conforto e bem-estar. O mais básico seria o lar, doce lar. Mas quantos casais são obrigados a deixar escapar a oportunidade da casa própria depois de terem empenhado toda a economia numa tentativa de compra com a ajuda de financiamento? Pois anos depois, atolados na dívida diante de um sistema de cálculo que nunca reduz o saldo devedor e só faz as prestações saltarem, enxergam o sonho se dissipando e chegando ao fim, muitas vezes num leilão promovido pela instituição financeira. Esta situação é para quem já viveu muito, enfrentou ininterruptamente crises políticas e econômicas patrocinadas por governos incapazes, e já teve projetos pessoais e familiares desmantelados por vezes.
Imagine então a situação de um adolescente? São tantas as provações que este é obrigado a enfrentar na sua trajetória de vida e poucas delas apontam um caminho. Começa pelo primeiro emprego, muito antes do projeto de estudos estar concluído. Pois, para estudar, a maioria dos jovens precisa de um emprego. Poucos têm o privilégio de frequentar cursinhos preparatórios e faculdades exclusivamente com o dinheiro dos pais.
Certo que, na questão do emprego, um programa do governo federal tenta amenizar a dificuldade que os jovens enfrentam quando deparam, na oferta de vagas, que a empresa que disponibiliza o emprego exige, no mínimo, um ano de experiência.
A próxima provação será no campo do estudo, onde se vai normalmente para uma destas duas variantes: por falta de recursos da família, o jovem que pretendia se tornar um médico vai frequentar um curso de área oposta, de custo de manutenção mais baixo e de horário que permite uma atividade remunerada; por falta de um ensino médio adequado, o jovem não se sente capacitado para tentar vaga numa universidade pública e é aprovado em outra instituição, onde suas chances são maiores. Mas, meses depois, não consegue manter os custos da faculdade particular e interrompe os estudos.
Também é certo que o governo federal lançou programa para preencher as vagas abertas com as desistências nas universidades públicas, permitindo a participação de estudantes da rede privada. Mas o processo é seletivo, capaz de virar um quase vestibular. Nem todos, assim, poderão continuar os estudos e isso não ocorre por preguiça mental. É resultado da formação que a maioria dos alunos do ensino médio brasileiro recebeu.
E muitos outros projetos que poderiam ser levados às diferentes comunidades ficam emperrados em algum lugar. É o que mostra reportagem especial na edição deste domingo, na página 11.





