Nuvens sobre o palácio
Algo de errado acontece no ambiente palaciano de Brasília, conforme evidenciam algumas diferenças de linguagens e posturas entre o pessoal do primeiro escalão do governo federal. E tornam-se mais visíveis nestas últimas semanas, quando as acusações de empreguismo e privilegiamentos fazem nuvens sobre alguns ministérios. Por mais que se cuidem, ministros e assessores diretos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva soltam, com certa rotina, frases que não batem com as pretensões daquele que os nomeou e neles deposita confiança. Provavelmente por isso as mudanças que Lula da Silva tanto almeja para o Brasil pareçam tão distantes e cada vez mais impossíveis.
Mas nem todas as manifestações de contrariedade com o que aconteça no Palácio do Planalto são engendradas nos corredores do poder central. Alguns homens do presidente já decidiram peitar com a licença dos leitores para o uso de um termo nada apropriado abertamente o Estado que eles representam.
Na quarta-feira, o ministro da Educação, Cristovan Buarque, fez a sua cena. Para garantir mais verbas para o setor, Buarque pediu a cerca de 400 estudantes do ensino médio que façam uma caminhada até o Congresso Nacional, durante a votação do orçamento da União, em outubro. O que o ministro quer é justo: mais verbas para a educação. Mas o que ele pede aos estudantes soa como pressão política de efeito facilmente neutralizável.
Claro e cristalino que Cristovan Buarque é uma autoridade respeitável na área da educação. Mas talvez esteja faltando para este ilustre brasileiro algum preparo político. Pois sendo uma autoridade da educação, Buarque tem plenas possibilidades de peitar o sistema do qual faz parte na condição de alguém referenciado. Ou seja, negociando e, daí sim, batendo de frente com os colegas ministros, aqueles que não enxergam a educação como algo importante.
E a caminhada, no caso, fica por conta dos estudantes. Abusando outra vez do coloquial, talvez até usando a língua que se fala nas ruas, principalmente entre os jovens, esta galera, a formada pelos milhares de estudantes, já passa da hora de ser chamado à responsabilidade, principalmente quando a questão é a maior fatia do Orçamento da União. Não é preciso um ministro convocar caminhada até o Congresso Nacional.
É bom lembrar que recentemente Cristovan Buarque foi repreendido pelo governo, por reclamar publicamente da falta de dinheiro para a sua área. Se há diálogo e viabilidade de negociação no Palácio, o ministro se equivou ao reclamar, pois o seu fórum é a sala de reuniões do pessoal do primeiro escalão. E se as condições de negociação inexistem, daí sim, Buarque, uma autoridade, mas não um político, tem o dever de denunciar para a sociedade as dificuldades que enfrenta como ministro. Então, ao que parece, neste momento de nuvens carregadas nem uma e nem outra parte merecem tanto aplausos quanto reprimendas. Que se acerte a casa primeiro.

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