Renda suficiente x microcrédito
Ter renda proveniente de salário suficiente para as necessidades da família ou recorrer ao microcrédito lançado pelo governo federal? Não há dúvida, a primeira alternativa é a melhor. Mas, na verdade, este tipo de questionamento nem deveria existir.
Predominasse uma política econômica forte o suficiente para promover a democratização das oportunidades e a justiça social, o trabalhador de baixa renda não teria que recorrer aos empréstimos. Prevalecesse uma política social sem tom paternalístico e por muitas vezes eleitoreiro, haveria consequentemente menor índice de desacertos e ninguém recorreria ao banco para quitar a conta da farmácia.
Democratização das oportunidades e justiça social, estas são as palavras de ordem. Quem as emprega muito nos últimos dias é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No caso do microcrédito, ele se refere ao que se convenciou denominar de inclusão bancária. Inclusão, aliás, que também se transformou nestes últimos anos em uma palavra importante e que, complementada com a expressão bancária, na ótica do governo federal contribuiria para pôr fim à vergonhosa concentração de renda da sociedade. Será? Como?
Houve por certo uma época no Brasil em que emprestar dinheiro era vantagem. Bastava ter um pedaço de terra para plantar café e entrava-se facilmente nos planos de revigoramento da cafeicultura, com juros mais do que confortáveis. Nem todos que recorriam a esta modalidade de financiamento agrícola precisavam do dinheiro para tocar as lavouras, pois podiam mantê-las com recursos próprios. Assim, usavam o que obtinham a juros subsidiados para as aplicações financeiras com renda de mercado. Assim, lucravam e somavam à renda da cafeicultura também o proveniente dos investimentos.
O subsídio acabou e a economia nacional, que já não era animadora, destrambelhou. Emprestar dinheiro hoje é loucura. Exceto modalidades personalizadas, como os créditos especiais com juros de 5% a 5,5% ao mês, na média, o resto é estratosférico e medonho. Nas financeiras, por exemplo, espalhadas aos montes pelas cidades de médio porte para cima, chegam a negociar com juros acima de 12% ao mês. E oferecem como opção, quando o cliente é portador de uma conta bancária com direito a talão de cheques, juros inexpressivamente menores se o tomador do empréstimo respaldar a operação com cheques na quantidade das parcelas.
As taxas bancárias também assombram. Não fosse a insegurança, a prática de guardar as economias sob os colchões teria já retornado com força. Ou melhor, se houvesse também economias para guardar. Então a inclusão bancária não democratiza e nem coloca a justiça social mais perto do brasileiro. Se não houver cuidados, essa inclusão, ao contrário, escraviza, como já faz com a classe média, que na crise usa cartões de crédito e limites de cheque especial para tentar manter o padrão de vida. Teme-se haver a necessidade, portanto, de nova carta de alforria. E viva as ilusões.

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