OPINIÃO DA FOLHA
Além do Semi-Árido
O Brasil da miséria tem fronteiras que ultrapassam o Semi-Árido nordestino e vai muito além do horizonte da pobreza que o governo federal enxerga. Ontem, o ministro extraordinário da Segurança Alimentar, José Graziano, não escondeu satisfação ao anunciar que o cartão-alimentação do Programa Fome Zero atenderá este mês 758 mil famílias, o que representa um universo de quatro milhões de pessoas, em 837 municípios brasileiros. O maior contentamento é pelo fato do programa chegar perto da meta fixada para 2003, de atingir 1.196 municípios do Semi-Árido nordestino.
Excelente, sob o enfoque da amenização de um problema em região específica, onde a questão é de grave proporção. Mas o Brasil é um País de mais de cinco mil municípios. E, nessa imensidão de cidades e pessoas, há mais que os quatro milhões de beneficiados necessitando zerar a fome. Se existe uma verdade que não pode ser omitida, esta é de que o programa do governo federal chega a outras regiões brasileiras. Mas não com o volume do Semi-Árido nordestino.
Outra realidade que não pode ser negada é que, embora o quadro nordestino seja incostentável, há outros ''nordestes'' no Brasil. E, neles, a quantidade de pessoas carentes, vivendo abaixo da linha da pobreza, é tão expressiva quanto no Nordeste do governo federal. Em Londrina, por exemplo, no mês passado o cartão-alimentação do Fome Zero chegou a somente 250 famílias no primeiro lote.
Certo, o ministro Graziano justificou, também ontem, que a fase mais difícil do programa já passou e que agora é hora de colher os frutos do trabalho de implantação do Fome Zero, nas regiões mais pobres do País. E que o próximo passo será ampliar o programa para o Norte, a partir do Estado do Acre.
Tomara. Principalmente que os consórcios de segurança alimentar e desenvolvimento local funcionem. Pois somente a distribuição de cartões de alimentação não resultará em frutos. É preferível apostar que o caráter paternalista seja apenas emergencial e que as ações sociais e econômicas integradas, conforme pretende o programa, sejam o capítulo forte do Fome Zero.
Intenção, ao que parece, existe. Mas é fundamental que a vontade política deste ou de outro ministro e de todos os demais políticos envolvidos sejam tão forte, a ponto de evitar manchas num programa que já nasceu com estigma de ser assistencialista, mas pode se tornar importante se executado com acerto.





