Como entender os números
É com um olho aberto e outro fechado que o consumidor brasileiro precisa entender os números despejados diariamente sobre o desempenho da economia. Neste fim de semana, por exemplo, o levantamento das vendas de veículos causam certa perplexidade nas pessoas mais desatentas, pois as informações são de difícil compreensão.
Divulga-se que a indústria automobilística exportou bem em agosto e faturou 60,3% a mais que no mesmo período de 2002, no entanto sofreu queda de 20,4% no consumo interno. Porém, na mesma data, a quinta-feira, outra notícia dá conta que a redução do Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI) do carro zero, que começou a vigorar no dia 6 de agosto, já produz efeitos positivos sobre as vendas do setor.
Ótimo. A princípio, as duas notícias são importantes, embora pareçam contraditórias, pois refletem aquecimento interno e externo. No entanto, elas se chocam por uma questão de períodos analisados.
As vendas externas em ponto de ebulição, e consequente satisfação, representam que a indústria automobilística está fabricando carros que agradam proprietários de outros países, inclusive em relação aos preços. Nisso, cabe considerar que o sobe e desce do dólar, com os eventuais manejos feitos para que a moeda norte-americana esteja sempre mais alta do que para baixo, tem papel preponderante nas exportações. Pois na ótica simplista, adotada por um bom número de especialistas e empresários que tem o mercado externo como forte filão, quanto mais alto o dólar melhor para as vendas além das fronteiras brasileiras. Não importa, para os defensores dessa tese, quais são os resultados nefastos para a economia nacional. E talvez pouca importância tenha o fato do consumo interno de veículos sofrer, no período analisado, queda de 20,4% em relação a igual período do ano anterior.
Já a notícia relacionada ao IPI merece mais atenção. A redução deste imposto foi mais uma concessão do governo federal à indústria automobilística, num momento em que os pátios das montadoras e das concessionárias estavam lotados de carros encalhados e as empresas ameaçam com demissões. Para desafogar os pátios e manter a produção, menos impostos, decidiu o governo, contentando os fabricantes. E até que, teoricamente, o consumidor foi lembrado: com imposto mais baixo, o produto final deixaria a linha de montagem com um custo mais compatível com o mercado. E, apesar da inexpressiva redução, a expectativa era de mais vendas.
O IPI baixou, mas o preço do carro foi mantido. E se a entidade que representa a indústria automobilística diz, agora, que os efeitos são produtivos, então só resta imaginar que o efeito psicológico da redução do IPI foi mais forte que a constatação da realidade que se apresenta. Pois pesquisa recente mostra que o preço do carro sofreu elevação de 1,8%. O IPI caiu três pontos para veículos novos de até 2.000 cilindradas. Estranho.

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