OPINIÃO DA FOLHA
Depois da tempestade
O Brasil teve mais uma prova na quarta-feira da fragilidade política do governo federal, este que numa sequência assustadora sofre pressões e se vê obrigado a recuos. São os sem-terra em determinado momento, depois os servidores públicos federais, os prefeitos, os juízes e, com força monstruosa, os governadores. E não é só questão de fragilidade, o que é pior. Inabilidade seria o termo mais apropriado, para se furtar de mencionar um termo complicado: incapacidade.
Acuado dentro de um cenário onde os problemas são muitos e as soluções nem pingam, o projeto do Brasil das mudanças parece cada vez mais distante para o governo. Seu partido, o PT, já comete mesmices, quando nem passaram ainda nove meses da posse e o fim do prazo para fazer ao menos os primeiros reparos neste País demora mais de três anos. Mas já se fala abertamente na reeleição do presidente, o que é um absurdo, e ponteia-se essa pretensão com possibilidades, no mínimo, assombrosas: acertos e casamentos indiscriminados, mesmo que as uniões resultem numa colcha de retalhos ideológica.
Inegável, alguns programas foram lançados, mas todos de caráter assistencial, face à emergência de soluções para problemas sociais agudos. Ainda assim, estes deixam de fora uma legião considerável de famílias em situação de miséria. E, para os assistidos, apenas perpetua o paternalismo do Estado e não aponta alternativas de renda. Pudera, como fazer isso se nem para o desemprego há um aceno de melhora.
Os dois únicos grandes projetos, de caráter mais geral, estão a ponto de serem aprovados sem nada de novo representar ao País. Aliás, as reformas tributária e da Previdência, por serem únicas, geram debates acirrados e muita polêmica. Foram propostas com uma cara que não atendia às expectativas de praticamente ninguém. Deverão passar pelo Congresso Nacional e receber a sanção presidencial minguadas, talvez mais nocivas aos interesses da Nação do que são atualmente. Então não se faz mudança, fica-se como está.
Movido a pressões, eis uma rica definição. A porteira foi aberta e os segmentos organizados já sabem disso. Para cada novo projeto ou medida anunciada pelo governo, mais pressões e mais recuos. E assim leva-se uma gestão administrativa, provocando barulho e dando continuidade ao sistema.
O tom do discurso presidencial até parece de certo desconforto com esta situação. Puxões de orelhas aqui ou lá são quase frequentes, inclusive no pessoal do primeiro escalão. Mas, por imobilismo ou falta de disposição política, nada se cria, nada se transforma. Agora, quando as denúncias de empreguismo rondam os ministérios, inclusive em sua forma mais grave, o nepotismo, espera-se uma reação do governo.
Afinal, a posse foi em janeiro e estamos no início de setembro. Tirando este, faltam ainda outros três setembros de governo. E se cabe uma modesta sugestão: melhor esquecer a reeleição, que ainda demora, e pensar no governo de agora. Depois, se os resultados forem razoáveis, o próprio eleitor será o cabo eleitoral deste governo.





